sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sedra para o Shabat de 13/04/13 (Bamidbar 11)


Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Neste Shabat, estudaremos o perek 11 do sefer Bamidbar (capitulo 11 do livro de Números), onde esta relatada a ira do Eterno se inflamando em fogo entre o povo; o lamento de Moshe junto ao Eterno; a murmuração do povo por causa de carne e outros mantimentos que eram usufruídos no Egito; murmuração por causa do Maná; a resposta do Eterno; a efusão do Espírito sobre os anciãos  e o envio das codornizes ao povo.

Uma face assustadora se revela.

Neste capitulo da Torah, não há como não se assustar com o comportamento do povo hebreu diante das circunstâncias vividas naquele momento, pois depois de presenciar tantos sinais e prodígios do Eterno, ele, o povo, reage como se não houvesse testemunhado as maravilhas operadas para que sua libertação ocorresse... Mais assustador ainda é o fato de que ainda hoje, sem perceber, agimos da mesma forma como veremos mais adiante.
Podemos observar claramente neste episodio que apenas os "corpos" do povo haviam se retirado do Egito, pois os "corações" continuavam lá! Desta forma, considerando que a vida é uma síntese entre o físico e o espiritual, percebe-se o desenvolvimento de um desequilíbrio afetando o shalom do arraial, pois a partir do momento em que a preocupação com o bem estar físico (material) se torna maior que a do espiritual, a tendência e nos tornarmos egoístas, imediatistas e, consequentemente, murmuradores, porque se as coisas não acontecem como e quando queremos, geralmente reagimos desta forma.
Vejam a que ponto chegou a murmuração do povo, e constatemos o desequilíbrio entre o material e o espiritual existente naquele momento: RECLAMARAM DO MANÁ !!! Isso mesmo... Estavam tão preocupados com "o corpo" que se esqueceram da "alma". Mas por que reclamaram do maná? Para entendermos isto, devemos analisar tudo o que envolve o maná, seu anuncio, sua colheita seu preparo e etc. Para isso, leiamos Shemot (Êxodo) 16.4, 21 e Bamidbar (Números) 11.7-9.

Após a leitura sugerida, vemos que para se obter o maná era necessário diariamente, de manhã bem cedo, antes de o sol estar "alto", colhê-lo, pois do contrário ele derreteria. Para consumi-lo, dever-se-ia moer, pilar, cozinhar... Enfim, tudo isso demandaria tempo e trabalho e para quem é preguiçoso obviamente isto seria muito desconfortável, poderíamos até sugerir que a Torah, indiretamente, já estaria mostrando os efeitos destrutivos da Preguiça como mais tarde Shlomo hamelech (Rei Salomão) iria dizer:

“O preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono?” Mishlei/Provérbios 6.9

“Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos, e sê sábio.” Mishlei/Provérbios 6.6

“Como vinagre para os dentes, como fumaça para os olhos, assim é o preguiçoso para aqueles que o mandam.”
Mishlei/Provérbios 10.26

Mas o que realmente nos salta aos olhos é o fato de o maná ser um sinal que provaria a fidelidade do povo à Torah, veja o texto:

 “Então disse o SENHOR a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não.”
Shemot/Êxodo 16.4

Logo, ao lermos Bamidbar 11.6, compreende-se que o povo estava, de certa forma, murmurando contra a Lei/Torah, ele, o povo, estava “cansado” deste sinal, não queriam mais permanecer na Lei do Eterno. Compare isso com a carta escrita a Timóteo:

“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências;
e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas.”
II Timóteo 4.3-4

Vale lembrar que a sã doutrina mencionada é a dos emissários, que é a mesma dos profetas, pois ambos têm o mesmo fundamento - A Lei/Torah (cf Efésios 2.20) e que“Verdade” é um eufemismo para a Lei (verTehilim/ Salmos 119.142).

Um detalhe pitoresco que reforça a relação entre o maná e a obediência a Torah. pode ser captado, ao utilizarmos a guematria (sistema de cálculo das letras hebraicas), pois a palavra maná, do hebraico (מן)“man” tem o valor 90, que é o mesmo valor da letra (צ) “tsad”, a primeira letra da palavra “tsadik”- Justo. Ou seja, a diferença entre justo e injusto, se observa na permanência (ou não) na “colheita” do Maná... Ou melhor, a diferença esta na permanência na Lei do Eterno.

Cuidado com o que desejas

Quando atendemos ao impulso carnal, o resultado não pode ser bom. Embora lições possam ser aprendidas, as conseqüências por agirmos segundo esta natureza trazem, em vias de regra, muita dor. Vejamos a resposta do Eterno ao desejo do povo:

“E dirás ao povo: Santificai-vos para amanhã, e comereis carne; porquanto chorastes aos ouvidos do SENHOR, dizendo: Quem nos dará carne a comer? Pois íamos bem no Egito; por isso o SENHOR vos dará carne, e comereis; Não comereis um dia, nem dois dias, nem cinco dias, nem dez dias, nem vinte dias; Mas um mês inteiro, até vos sair pelas narinas, até que vos enfastieis dela; porquanto rejeitastes ao SENHOR, que está no meio de vós, e chorastes diante dele, dizendo: Por que saímos do Egito?”
Bamidbar/Números 11.18-20

Comparem isso com as palavras de Sha'ul aos romanos:

Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz.
Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra o Eterno, pois não é sujeita à lei de YHWH, nem, em verdade, o pode ser.
Portanto, os que estão na carne não podem agradar ao Eterno.
Romanos 8.6-8


Conclusão

O desejo nasceu na lembrança do passado, quando viviam sem a Torah e sob o tacão de Faraó, em meio à idolatria e influencias estrangeira. Da mesma forma, ainda hoje, se não avaliarmos de onde vêm os impulsos que eventualmente sentimos, e nos entregarmos aos desejos, podemos até nos satisfazermos por algum tempo, mas as “náuseas” virão e, por fim, o “Kibrot Hataava” (sepulcro dos desejosos) ver Bamidbar 11.33-34).
Não devemos esquecer os milagres que O Eterno operou para nos libertar do cativeiro, nem questionar o sustento que O Sagrado, Bendito seja Ele, têm nos dado ao longo dos anos. A vida vivida longe da ética e moral ensinada pela Torah não deve ser motivo de orgulho, o seu prazer era efêmero e sua "liberdade" ilusória

Shabat Shalom !!! 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sedrá para o dia 06/04/2013 (Bamidbar 10)


Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

A sedrá deste Shabat nos fala sobre as palavras do Eterno a Moshe para que se fizesse duas trombetas de prata (chatsotserot kesef) e quando estas deveriam ser utilizadas; relata como seria a ordem de partida das tribos dos acampamentos; fala da proposta de Moshe a Chobab e da partida do monte do Eterno.

1- lembrando o propósito da Torah

A palavra hebraica "Torah" significa instrução, portanto, não faria sentido estudá-la sem uma perspectiva pratica de seu conteúdo para nosso cotidiano, destarte, conforme entendia o Rav. Akiva (morto em 135 d.C.), nada no texto se encontra por acaso. Por isso a leitura investigativa (midrash) é muito apropriada, pois possibilita interpretações que dão sentido a textos que, aparentemente, não dizem nada...principalmente a sociedade contemporânea.
Considerando que a Torah é a palavra de YHWH e esta é eterna, restringí-la ao texto em si, sem levar em conta que ela não é limitada ao tempo em que foi escrita, podemos ficar alheios a coisas grandiosas, já que o  literal nem sempre revela um sentido para o presente.

Corroborando com esta opinião, temos um trecho de Maimônides extraído da coletânea "Guia dos Perplexos" Ed. Sefer pg. 66 e 67:

O sábio disse: "Como maçãs de Ouro em salvas de prata assim são as palavras ditas nos seus sentidos" (Mishlei/Provérbios 25.11). Ouvi a explicação do que ele disse: A palavra "maskiyot", o equivalente hebraico para salvas, quer dizer "rede filigranada" - isto é  coisas em que há aberturas muito pequenas, tais como são feitas frequentemente pelos prateiros. Eles são chamados em hebraico maskiyot (do verbo "saká"), 'ele viu', uma raiz que ocorre também no Targum de Onkelos,  (Bereshit/Gênesis 26.8), porque o olho penetra através delas. Então Shlomo (Salomão) quer dizer: "Como maçãs de ouro em prata filigranada; com pequenas aberturas, assim é a palavra dita nos seus dois sentidos."
Vede com que beleza são descritas, nessa figura, as condições de um bom símile! Mostra que, cada palavra que tenha um duplo sentido, um literal e um oculto, o significado literal deve ter tanto valor quanto a prata e o significado oculto ainda mais precioso; de tal modo que o significado oculto está para o literal como o ouro está para a prata. Ademais, é necessário que o sentido evidente da frase dê àqueles que o considerem alguma noção daquilo que representa o que está oculto. Exatamente como uma maçã de ouro revestida com uma rede de prata, quando vista à distância, ou olhada superficialmente, é tomada erroneamente por uma maçã de prata, mas quando uma pessoa de vista perspicaz olha bem para o objeto, encontrará o que está dentro, e vê que a maçã é de ouro. É o mesmo caso com as figuras empregadas pelos profetas. Tomadas literalmente, tais expressões contém sabedoria útil para muitos propósitos, entre outros, para melhorar a condição da sociedade; por exemplo, os provérbios (de Shlomo/Salomão), e ditos semelhantes em seu sentido literal. No entanto, seu significado oculto é sabedoria profunda, conducente ao reconhecimento da verdade real.

Diante do exposto, vamos analisar o perek (capítulo) 10 de Bamidbar (Números).

2- As "chatsotserot" e as testemunhas.  

A palavra hebraica utilizada para se referir as trombetas em bamidbar dez é "chatsotserot"  (חצוצרת), isto é interessante, pois normalmente encontramos a palavra “shofar” para se referir a trombeta, como podemos observar no Tehilim/Salmos  81.4; Yeshayahu/Isaías 58.1; Yirmeyahu/Jeremias 4.5. Amós 3.6.
O fato de Bamidbar/Números utilizar especificamente “chatsotserot” indica uma distinção que nos instiga a buscarmos uma razão, a qual tentaremos encontrar a seguir.
Duas trombetas de prata ( Chatsotserot kesef) foram feitas e era sob o toque delas que o povo se reunia, ofertava, marchava...ou seja, elas simbolizavam os comandos do Eterno e, porque não dizer, sua palavra, eram uma espécie de “porta-voz” do Grande Rei, pois anunciavam a vontade de YHWH.
Agora leiamos Yeshayahu 43.10 e vejamos que Israel é a testemunha do Eterno chamado para anunciar as palavras e as obras de YHWH, assim como sua misericórdia, justiça e juízos. O que estamos dizendo é que Israel seria estas trombetas, ou melhor, as trombetas de prata simbolizavam Israel e sua função no mundo. Compare isto com o que Yirmeyahu perek(capítulo) 6 diz, principalmente o passuk (versículo) 30! Repare que por causa da rebeldia contra o Eterno e rejeição à sua Lei/Torah, Israel é considerado “PRATA DE REFUGO”, isto significa que aquele que um dia foi um instrumento distinto e sagrado para ocasiões solenes, agora, por causa do abandono a Torah, era considerado como lixo. Será mera coincidência a expressão “Prata de refugo”?
Contudo, alguém poderia objetar esta interpretação (Israel = Trombetas de Prata) alegando que o texto de Bamidbar nos fala de duas trombetas e não uma, porém a história do povo hebreu reserva mais um elemento que reforça a idéia como poderemos ver mais adiante.
Se as duas trombetas de prata simbolizam Israel, como podemos harmonizar isto com o fato dele ser UMA nação é não duas? A solução pode ser encontrada quando utilizamos um recurso conhecido como guematria, um sistema de cálculo das letras hebraicas, considerada uma “exegese mística”, cuja pratica produz resultados surpreendentes, vejamos o caso aqui em questão: A palavra “chatsotserot” têm o mesmo valor da palavra “Chofshut” (תושפח) –isto é, 794. A palavra “Chofshut” indica o ato de separar, apartar, conforme descrito no dicionário bíblico Strong pg 347, Sociedade Bíblica do Brasil.
De fato, houve na história israelita um momento em que o Reino se dividiu (921 a.C.), transformando-o em dois! Reinos do Sul (Yehudah) e Norte (Efraim/Israel), logo, temos por assim dizer nossas “duas trombetas”. As “coincidências” não param por aqui, existe ainda outro documento que corrobora com esta interpretação, estamos nos referindo ao livro de Apocalipse que, embora muitos questionem sua validade, não se pode negar que ele é um documento que demonstra a existência de determinada crença de um grupo no passado que perdura até hoje, vejamos o texto:

E foi-me dada uma cana semelhante a uma vara; e chegou o anjo, e disse: Levanta-te, e mede o templo de YHWH, e o altar, e os que nele adoram.
E deixa o átrio que está fora do templo, e não o meças; porque foi dado às nações, e pisarão a cidade santa por quarenta e dois meses.
E darei poder às minhas duas testemunhas, e profetizarão por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de saco.
Estas são as duas oliveiras e os dois castiçais que estão diante do Elohim da terra.
(Apocalipse 11.1-4)
Obviamente, este texto esta conectado com as palavras do profeta Z’charyah/ Zacarias Perek (capítulo) 4. Onde podemos inferir com clareza que as duas testemunhas citadas em Apocalipse são os  dois ramos de oliveira, vejamos:

E o anjo que falava comigo voltou, e despertou-me, como a um homem que é despertado do seu sono, E disse-me: Que vês? E eu disse: Olho, e eis que vejo um castiçal todo de ouro, e um vaso de azeite no seu topo, com as suas sete lâmpadas; e sete canudos, um para cada uma das lâmpadas que estão no seu topo.
E, por cima dele, duas oliveiras, uma à direita do vaso de azeite, e outra à sua esquerda.
(Zacarias 4.1-3)

Respondi mais, dizendo-lhe: Que são as duas oliveiras à direita e à esquerda do castiçal?
E, respondendo-lhe outra vez, disse: Que são aqueles dois ramos de oliveira, que estão junto aos dois tubos de ouro, e que vertem de si azeite dourado?
E ele me falou, dizendo: Não sabes tu o que é isto? E eu disse: Não, senhor meu.
Então ele disse: Estes são os dois ungidos, que estão diante do Senhor de toda a terra.
(Zacarias 4.11-14)
  
Esta figura também é anunciada em outro texto:

Digo, pois: Porventura rejeitou YHWH o seu povo? De modo nenhum; porque também eu sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim.
YHWH não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a YHWH contra Israel, dizendo:
Senhor, mataram os teus profetas, e derribaram os teus altares; e só eu fiquei, e buscam a minha alma?
Mas que lhe diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos a Baal.
Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça.
Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra.
Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos.
Como está escrito: Deus lhes deu espírito de profundo sono, olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem, até ao dia de hoje.
E Davi diz: Torne-se-lhes a sua mesa em laço, e em armadilha, E em tropeço, por sua retribuição;
Escureçam-se-lhes os olhos para não verem, E encurvem-se-lhes continuamente as costas.
Digo, pois: Porventura tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum, mas pela sua queda veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação.
E se a sua queda é a riqueza do mundo, e a sua diminuição a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude!
Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério;
Para ver se de alguma maneira posso incitar à emulação os da minha carne e salvar alguns deles.
Porque, se a sua rejeição é a reconciliação do mundo, qual será a sua admissão, senão a vida dentre os mortos?
E, se as primícias são santas, também a massa o é; se a raiz é santa, também os ramos o são.
E se alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo zambujeiro, foste enxertado em lugar deles, e feito participante da raiz e da seiva da oliveira,
Não te glories contra os ramos; e, se contra eles te gloriares, não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti.
Dirás, pois: Os ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado.
Está bem; pela sua incredulidade foram quebrados, e tu estás em pé pela fé. Então não te ensoberbeças, mas teme.
Porque, se YHWH não poupou os ramos naturais, teme que não te poupe a ti também.
Considera, pois, a bondade e a severidade de YHWH: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado.
E também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque poderoso é YHWH para os tornar a enxertar.
Porque, se tu foste cortado do natural zambujeiro e, contra a natureza, enxertado na boa oliveira, quanto mais esses, que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!
Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado.
E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades.
E esta será a minha aliança com eles, Quando eu tirar os seus pecados.
(Romanos 11.1-28)

Este texto é um documento que comprova que havia o entendimento de que Israel estava dividido entre ramos naturais e enxertados, e que em determinado tempo - conforme as profecias de Yechezkel /Ezequiel 37 e Oshea /Oséias 1 dizem -  se uniriam novamente.

Conclusão.

Vimos que as duas trombetas de prata, simbolizavam Israel, pois Israel é a testemunha de YHWH, que anuncia as palavras do Eterno (Torah), contudo, no futuro, se dividiria em dois reinos, tornando o simbolismo mais forte.
 Israel têm a incumbência de anunciar a Torah, pois esta sim é a Palavra do Eterno, mas não pode ser de qualquer forma, sem  pureza, contaminado com as imundícias deste mundo, pois foi esta impureza que nos deixou desterrados. Cremos que assim como nossas transgressões fez com que o Eterno nos banisse de Eretz Israel (Terra de Israel) , nossa fidelidade a Ele, Bendito seja, Fará com que Se lembre de nós e nos leve de volta a nossa herança.

Shabat Shalom!!!

sábado, 26 de janeiro de 2013

Experiência X Informação


Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

O Eterno, por meio do profeta Oshea (Oseias) faz uma séria advertência ao seu povo:

(Original)
נדמו עמי מבלי הדעת  כי אתה הדעת מאסת ואמאסאך (ואמאסך) מכהן לי ותשכח תורת אלהיך אשכח בניך גם אני

(Transliteração)
“Nidmu ami mibeli ha da'at ki atah ha da'at ma'asta vaem'asecha mikahen li vatiskach torat elohecha baneicha gam ani”

(Tradução)
"Meu povo será destruido por falta de conhecimento. Porque tu rejeitaste o conhecimento eu te rejeitarei do meu sacerdócio porque esqueceste o ensinamento de teu Elohim, EU também Me esquecerei dos teus filhos." (Oshea/Oseías 4.6)

Nesta advertência, a palavra que nos salta aos olhos é conhecimento. A palavra hebraica para conhecimento utilizada aqui é “DA’AT”, proveniente da raiz “YADHA”, dá-nos a ideia de um conhecimento de natureza pessoal e experimental ou mesmo discernimento. É importante enfatizarmos isto, pois sugere uma experiência pessoal e não apenas uma informação apropriada intelectualmente, ou seja, se trata de algo experimentado. Assim sendo, entendemos uma diferença, ou melhor, níveis diferentes para o conhecimento, podendo ser ele Prático (a que chamaremos de experiência) e Teórico (que chamaremos de informação)

Informação não é o bastante.

Poderíamos dizer que: “O povo do Eterno será destruído se a informação que ele possui não se tornar uma experiência vivida”. Isso pode até parecer um exagero, mas se analisarmos a questão, chegaremos a óbvia conclusão de que o povo não era desprovido de informação (conhecimento teórico) sobre O Eterno e sua vontade, mas desprovido de proximidade, relacionamento e experiência com O Criador. Na verdade, outro profeta registra esta falta de experiência com O Eterno apesar de toda informação existente:

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído;”
                                                                                             (Yeshayahu/Isaías 29.13)     

 O Texto de Oshea demonstra claramente que o povo se esqueceu da Torah, reforçando ainda mais o fato de que Torah não é mera filosofia, mas um exercício prático e diário de justiça e amor, gerando uma conseqüente santidade e não intelectuais inchados em seus egos.

Os exemplos de Avraham e Moshe.

Seriam Avraham e Moshe pessoas totalmente alheias a vontade do Eterno? Seriam eles totalmente ignorantes em relaçãoà Elohim quando foram chamados? Creio que não. As escrituras nos dão a entender que ambos possuíam alguma noção sobre o assunto como podemos inferir, vejamos:
Avraham, embora tenha vivido em Ur dos Caldeus, era descendente de Heber, bisneto de Shem ben Noach (Sem filho de Noé), devemos lembrar que Noach (Noé) era um homem justo e íntegro que andava com Elohim (Bereshit/Genesis 6.9). Shem (Sem) não foi como seu irmão Cham (Cão) o qual foi amaldiçoado, mas alguém que recebeu maior benção por parte de seu pai (ver Bereshit/Genesis 9. 26-27). Logo, entendemos que a tradicional história de que Avraham já observava o monoteísmo rejeitando a idolatria dos caldeus [a qual era “explorada” pelo seu pai (Terach), conforme especula alguns midrashim, que diz que Terach fazia ídolos] é muito plausível, significando que Avraham manteve a crença de seu ancestral fiel.

Moshe, de igual forma, era um hebreu que, apesar de ter sido adotado por uma egípcia (a filha de Faraó), foi criado por uma hebréia (sua própria mãe! Ver Shemot/Êxodo 2.9-3.1). É de fundamental importância dizer que, tanto a mãe de Moshe (Iochebed) quanto seu pai (Amram) eram da tribo de Levi que, mais tarde, se notabilizou por sua fidelidade ao Eterno (Ver Shemot/Êxodo 32.25-29).
Moshe sabia que era um hebreu e que a história do seu povo era emoldurada pela Fé num único Elohim, portanto não ignorava os princípios estabelecidos desde os tempos de seus patriarcas, pois certamente sua mãe o criou sob a égide do temor ao Eterno.

Como podemos verificar, tanto Avraham quanto Moshe, tinham uma base de Fé, um paradigma, mas não foi isso que fez deles ícones da história hebréia (quiçá de toda humanidade!!), o que tornou estes homens especiais, foram suas EXPERIÊNCIAS com O Eterno. Somente depois de experimentar um encontro real com Aquele que só conheciam teoricamente é que eles se tornaram o que são.
Com esta perspectiva, é impossível não nos lembrarmos de Yiov (Jó) que apesar de viver de maneira íntegra, reta e temente ao Eterno, desviando-se do mal, confessou que o conhecimento que ele tinha era insuficiente, ou seja, toda informação que ele obteve ao longo de sua vida, não se comparava com a experiência que fora adquirida (ver Yiov/Jó 42 1-6), pois o verdadeiro conhecimento é aquele que é acompanhado pela experiência.

A força de um ensino.

É a experiência com O Eterno que corrobora o ensino bíblico, de modo que ousamos dizer que um ensino não se sustenta se ele não gera um experiência mística com O Criador, e nem uma experiência com o Eterno pode ser obtida a partir do nada, do acaso...A própria palavra “experiência”, quando analisada em sua etimologia (do latin; experientia), revela que tal coisa é obtida através de tentativas repetidas. Portanto, informação (conhecimento teórico) e experiência (conhecimento prático) só têm legitimidade quando caminham juntos.

A era da informação.

Atualmente é dito que vivemos na era da informação. De fato, há muita informação sobre O Criador, Sua vontade e etc. Mas será que os mesmos que estão “informando” acerca destas coisas viveram ou têm vivido uma experiência com O Elohim de Avraham e Moshe? Pense nisso...
 A experiência amplia o entendimento sobre a informação de tal maneira, que num primeiro momento pode até nos surpreender, como podemos observar em Sh’muel alef/1 Samuel 16.1-13. Ali, vemos que Sh’muel (Samuel) tinha uma informação [um dos filhos de Yishai (Jessé) deveria ser ungido], mas apenas a informação não foi suficiente, pois por pouco Sh’muel não ungiu a pessoa errada! A experiência com a voz do Eterno vivida por Sh’muel o livrou de um grave erro. Isto nos ensina que não devemos nos firmar apenas nas informações, pois existem muitos aspectos experienciais que dão outro sentido as informações.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Julgamento do Novo Testamento


Por Yochanan ben Avraham

Introdução.
Quando se trata de julgamento, todos querem saber qual o veredicto. Porém, para a frustração daqueles que iniciam esta leitura, não estamos aqui para “bater o martelo”, mas levantar algumas questões para que se conste nos “autos” deste julgamento.
Também não pretendemos fazer as vezes de advogado tanto de defesa quanto de acusação, a imparcialidade deste autor (imparcialidade esta que certamente pode “irritar” os mais afoitos) nada mais é do que um cuidado para não incorrer em um fundamentalismo que está mais do que provado ser extremamente nocivo para o estabelecimento de diálogos que proporcionem o conhecimento mútuo de seus participantes e a melhoria nas relações humanas.

O Réu.
“Sentado no banco dos réus”, temos o Novo Testamento. Obra literária que norteia (ou norteou) a conduta de milhares de pessoas mundo afora, cujos princípios ensinados são atribuídos a Yeshua ben Yosef (Conhecido como Jesus) e seus discípulos, todos eles judeus que viveram por volta do primeiro Século. Embora os supostos autores tenham vivido no referido período, o Novo Testamento foi organizado e oficializado em meados do Século V, ou seja, muito tempo depois do que foi vivido pelos seus autores.

A Acusação.
Devido à distância entre o tempo da autoria dos livros que compõe o Novo Testamento e sua oficialização como parte integrante das escrituras sagradas, muitas suspeitas se levantam e algumas evidências são constatadas de modo que o Novo Testamento é acusado de:
Ser uma fraude, obra espúria e mentirosa que contradiz a Torah (Lei) do Eterno e que, por isso, deve ser descartada no “lixo”.

Algumas perguntas.
Seria mesmo essa (jogar no lixo) a melhor maneira de lidarmos com estas descobertas? É assim mesmo que devemos agir? Como Lutero e os inquisidores do tribunal de Cristo queimando os sidurim (manual litúrgico judeu) e outras obras literárias judaicas? Não estaríamos nos assemelhando aos algozes de nosso povo?
Bem, como podemos ver a questão não é tão simples, é preciso separar as coisas. Primeiramente precisamos saber se o que queremos afirmar é: o Novo Testamento pode ser considerado escritura sagrada ou se é uma obra desprovida de valores éticos e morais, de rica documentação que revela o pensamento e os costumes de um povo em relação à Torah em determinada época?  
Portanto, são coisas completamente distintas que devem ser consideradas.

A Alegação do Réu.
Sobre a acusação de contradizer a Lei (Torah) do Eterno, o réu afirma:

* “A Lei é santa e o mandamento santo, justo e bom.” (Rom.7.12)

* “Não cuideis que vim destruir a Lei. Não vim destruir, mas cumprir... Até que o céu e a terra passem, nem um traço ou yod (menor letra do alfabeto hebreu) se omitirá da Lei.” (Mat. 5.17)

* “Porque este é o amor de Elohim: que guardemos os seus mandamentos e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo. 5.3)

* “Anulamos a Lei pela Fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a Lei.” (Rom. 3.31)

Muitas outras afirmações são feitas, mas estas são suficientes para demonstrar a intenção do “acusado”.

Sobre a acusação de ser uma fraude por causa de problemas de autoria e datação, a história afirma que no Velho Testamento também encontramos problemas para se definir autores e datas e nem por isso seu valor é questionado, pois livros como Yeshayahu (Isaías) pode ter tido até três autores; Z’charyah (Zacarias) teria dois autores; a dúvidas quanto ao final do último livro da Torah (D’varim/ Deuteronômio), pois como Moshe (Moisés) poderia escrever se ele já teria morrido? Enfim, se buscamos um julgamento justo, não podemos ter dois pesos e duas medidas, pois isso é abominação perante o Eterno:

“Dois pesos diferentes e duas espécies de medida são abominação ao SENHOR, tanto um como outro.” (Mishlei/Provérbios) 20.10

Uma testemunha corajosa.
Sugerimos que antes de qualquer coisa, examinemos os conteúdos, pois podemos perder uma grande oportunidade de aprendermos como viver a Torah em alguma situação inusitada que possamos nos encontrar, pois como escreveu o célebre rabino Isaac Liechtenstein ao seu filho:

“De cada linha do “Novo Testamento”, de cada palavra, o espírito judaico fluía luz, poder, resistência, fé, esperança, amor, caridade, sem limites e indestrutível fé em Elohim.”

O interessante é que alguns anos antes, este rabino tomou o Novo Testamento das mãos de um professor judeu de uma escola comunitária no norte da Hungria, e num acesso de raiva lançou pela sala.

Finalmente
Sabemos que o manual para a vida é a Torah, e que os demais livros da bíblia se baseiam nela para desenvolver suas mensagens, descartá-los por causa de problemas de autorias suspeitas e supostas contradições de um ou outro texto, a meu ver é um grande desperdício. Contudo, aguardaremos o veredicto que O Eterno a seu tempo dará.



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A ansiosa expectativa pelo... Caos?


Por Yochanan ben Avraham

Introdução

Não, não há um equívoco no titulo deste texto. Por mais estranho que possa parecer, é uma proposta para reflexão que, embora possa contrariar alguns dogmas, achamos que ela pode ser útil àqueles que, por alguma razão, se consideram “perdidos” e procuram encontrar um início, o “fio da meada”, para retomarem suas caminhadas.
Alguém poderá perguntar: “Por que desejar o Caos?” Reconhecemos que, devido à conotação negativa da palavra, a primeira impressão é de que tal desejo é algo doentio, pois quem, em sã consciência, desejaria algo assim? Porém quando examinamos o conceito do termo Caos, entendemos que existe uma linha de raciocínio positiva, esperançosa e confiante no domínio e soberania do Eterno Criador atrelada a este conceito. Logo, não haveria razão para o desespero e atitudes precipitadas em relação aos outros, aos lugares, as coisas e a si mesmo.

O conceito de “Caos”

Não é possível dizer tudo o que envolve a conceituação de Caos para uma análise mais pormenorizada do assunto, os debates sobre como melhor definir o termo ocuparia muitas linhas (ou mesmo páginas!), além da interdisciplinaridade exigida que nos levaria a investir um tempo muito maior para a pesquisa. Mesmo assim, tentaremos com poucas palavras apresentar uma conceituação simples para podermos desenvolver nosso raciocínio.
A palavra Caos (do grego Χάος, transl. khaos), embora de origem grega, tem um conceito antiguíssimo, podendo ser identificado em literaturas de outras civilizações anteriores, portanto, o conceito é mais antigo que a palavra.
Caos geralmente está associado a um estado de desordem, indefinição ou mesmo confusão, embora alguns acadêmicos questionem esta definição. De qualquer forma, o Caos sempre foi visto pelas antigas civilizações como uma espécie de ponto de partida para a criação, um cenário propício para a ação criativa “das divindades”. As similaridades entre sumérios, egípcios, hebreus e fenícios, nesse aspecto, são impressionantes! Ainda mais quando levamos em consideração que as conclusões que eles chegaram, estão mais associadas à intuição e o misticismo do que as ciências propriamente ditas.

O “Caos” nas civilizações antigas

SUMÉRIOS:
“Quando a Terra se teve separado do Céu,
Quando se teve fixado o Nome do Homem,
Quando An se teve «levado» ao Céu,
Quando Enlil se teve «levado» à Terra...”

O texto acima foi encontrado em tabuletas sumérias, traduzidas pelo especialista Samuel Noah Kramer. Assim, o conceito de caos nasceu, possivelmente, na Suméria. As tabuletas sumérias falam que no principio do mundo somente havia um “oceano primordial” infinito, no qual todas as coisas estavam misturadas. Era o caos. Da leitura do texto Kramer tira três conclusões:

1) Por algum tempo o céu e a terra eram uma unidade. E logo se separaram.
2) Havia alguns deuses antes da separação da terra e do céu.
3) Quando essa separação do céu e da terra aconteceu, foi o deus do
céu An, que "levou" o céu, mas foi o deus do ar, Enlil, que "levou" a
terra.

EGÍPCIOS:
No Egito antigo, também encontramos algo impressionante:

“No início, havia apenas Nun. Nun era as águas escuras do caos.
Um dia, um monte levantou-se para fora das águas. Este monte
foi chamado Ben-Ben. Nesta colina estava Atum, o primeiro
deus. Atum tossiu e cuspiu Shu, o deus do ar, e Tefnut, a deusa
da umidade. Shu e Tefnut tiveram dois filhos. Primeiro, houve
Geb, o deus da terra. Então, houve Nut, a deusa do céu. Shu
ergueu Nut de modo que ela se tornou um dossel sobre Geb.
Nut e Geb tiveram quatro filhos chamados Osíris, Isis, Seth e
Néftis. Osíris era o rei da terra e Isis era a rainha. Osíris foi um
bom rei, e reinou sobre a terra por muitos anos. No entanto, tudo
não estava bem. Seth estava com ciúmes de Osíris, pois ele
queria ser o soberano da terra. Ele cresceu mais e mais furioso,
até que um dia ele matou Osíris. Osíris desceu ao mundo
subterrâneo e Seth permaneceu na terra e tornou-se rei. Osíris e
Ísis tiveram um filho chamado Horus. Horus lutou contra Seth e
recuperou o trono. Depois disso, Horus era o rei da terra e Osíris
era o rei do submundo”

Podemos concluir esta parte sobre o caos no antigo Egito afirmando que para eles o caos era algo anterior à criação. Esse caos primordial estava imerso nas águas pantanosas e obscuras do oceano primitivo. A ordem começou a aparecer juntamente com uma ilha que emerge do oceano.

FENÍCIOS
Um historiador fenício chamado Sanchoniaton, que viveu na cidade de Tiro no Séc. XII a.C escreveu o seguinte:

“Os princípios das coisas eram um caos, em que os elementos
estavam misturados sem desenvolver-se, e um espírito do ar.
Este teve cópula com o caos e gerou com ele uma matéria
viscosa, Mot (hilyn) que encerrava em si as forças viventes e as
sementes dos animais. Através da mistura de Mot com a matéria
do caos e a fermentação, originada dela, se separaram os
elementos. As partículas de fogo se elevaram e formaram as
estrelas. Pelo influxo do fogo no ar, foram produzidas as nuvens.
A terra se tornou fértil. Da mistura, corrompida por Mot, de água
e terra, se originaram os animais mais defeituosos e sem
sentidos. Estes produziram outros animais de novo, mais
perfeitos e dotados de sentidos. O reboar do trovão na tormenta
foi o que fez despertar para a vida os primeiros animais que
dormiam em seus invólucros seminais.”

GREGOS:
A concepção grega difere um pouco das anteriores, pois o poeta Hesíodo apresenta o Caos como o primeiro e mais velho deus:

“Primeiro que tudo surgiu o Caos, e depois Gaia [Terra] de amplo
peito, para sempre firme alicerce de todas as coisas, e o
brumoso Tártaro num recesso da terra de largos caminhos, e
Eros [amor], o mais belo entre os deuses imortais, que amolece
os membros e, no peito de todos os deuses e de todos os
homens, domina o espírito e a vontade ponderada. Do Caos
nasceram o Érebo e a negra Noite; e da Noite, por sua vez,
surgiu o Aither e o Dia, que ela concebeu e deu à luz depois da
sua ligação amorosa com Érebo. E a Terra gerou primeiro Urano
[céu] constelado, igual a ela própria, para a cobrir em toda a
volta, e para ser eternamente a morada segura dos deuses bemaventurados.
Deu à luz, em seguida, as altas Montanhas, retiros
aprazíveis das Ninfas divinas, que habitam nas montanhas
arborizadas. Também deu à luz o mar estéril, que se agita com
as suas vagas, o Ponto, sem deleitoso amor; e seguidamente,
tendo partilhado o leito com Urano, gerou Okeanos dos
redemoinhos profundos, e Coió e Crio e Hipérion e Jápeto...”
                                                                                           [Hesíodo, Teogonia 116]


O “Caos” na Bíblia

A concepção hebraica pode ser observada logo no início do relato bíblico,  onde em Bereshit (Gênesis) 1.2 temos uma expressão que nos remete ao conceito de Caos, referimo-nos a “Tohu va vohu” (תהו ובהו). Esta expressão merece uma atenção especial, pois apesar de não encontrarmos cognatos conhecidos em outros idiomas para a palavra “Tohu”, ela é traduzida como algo informe, confuso, caótico, nulo e outros termos que sugerem a mesma idéia. Para entendermos melhor como ela pode ser aplicada, destacaremos abaixo alguns textos onde “Tohu” é utilizada e suas respectivas conotações:

D’varim (Deuteronômio) 32.10 e Yov (Jô) 6.18 = Área deserta
Yeshayahu (Isaías) 24.10 = Cidade destruída
Sh’muel alef (I Samuel) 12.21; Yeshayahu (Isaias) 29.21, 41.29, 44.9, 45.19 e 59.4 = Confusão moral e espiritual
Bem Sirach (Eclesiástico) 41.10 = Irrealidade

Podemos perceber que “Tohu”, geralmente está associada a uma situação negativa.
A palavra “Vohu”, por sua vez, sempre aparece acompanhada de “Tohu” e significa “Vazio”, possivelmente por causa do cognato árabe “bahiya” (Estava vazio). Logo, “Tohu va Vohu” pode ser traduzida como: “Sem forma e vazia”; “Confusa e Vazia”; Caótica e Vazia”

Sendo assim, notamos que assim como os sumérios e os egípcios, o relato da criação é extremamente semelhante, podendo até causar certo “desconforto” a determinadas pessoas e grupos religiosos, pois se pode sugerir que ele é nada mais nada menos que a repetição de um mito, já que as civilizações Suméria e egípcia são anteriores a hebréia! Porém, não vemos assim, entendemos que estas civilizações já conheciam de alguma forma, provavelmente por transmissão oral, o relato da criação e com o passar dos anos outros elementos, conforme suas crenças foram acrescentados criando, por assim dizer, uma “nova história” para o fato e que mais tarde, o relato original da criação foi registrado pelos hebreus.

O Profeta e o “Caos”

Assim veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo:
“Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta”.
“Olha, ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares.” (Yirmeyahu/Jeremias 1:4-5, 10)

Você já percebeu que antes de edificar e plantar, o profeta deveria arrancar, derrubar, destruir e arruinar? Pois é... Qual é a situação decorrente disto? Desordem, confusão, “muito entulho”.
Só depois de derrubar o “velho” é que se pode estabelecer o “novo”... E independente de se considerar o texto seguinte como inspirado ou não, não conheço nada melhor para exemplificar essa realidade do que as palavras atribuídas a Yeshua:

“Ninguém deita remendo de pano novo em roupa velha, porque semelhante remendo rompe a roupa, e faz-se maior a rotura. Nem se deita vinho novo em odres velhos; aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam.”
(Matitiyahu/Mateus 9.16-17)

Parafraseando Paulo Freire, o qual disse: “o Mundo não é. O Mundo esta sendo”, dizemos que o conhecimento segue a mesma perspectiva, portanto, estamos conhecendo, aprendendo, redescobrindo coisas que já considerávamos descobertas e, consequentemente uma “desordem” (Caos) mental, irá se estabelecer se não se permite uma abertura de mente, uma quebra de paradigmas.
Contudo, é justamente aí que vislumbramos “a criação”, pois não cremos em uma criação “Ex nihilo” (termo Latim que significa "do nada"), são as “ruínas” de um paradigma que fornece os insumos para a criação.

A reflexão que propomos é:

Parece que O Eterno realiza sua criação a partir da destruição daquilo que não está correto, é quando nos desfazemos de conteúdos, que não servem para a manutenção do equilíbrio, é quando o “caos” se estabelece e nossa miserabilidade se manifesta revelando nossa dependência, que Ele, Bendito Seja, ordena nossa vida segundo o seu propósito.
Finalmente, lembramos que a terra estava caótica e foi reordenada (Bereshit 1.2); O mundo foi destruído pelo mabul (dilúvio) e a partir de Noach (Noé) e sua família foi refeito (Bereshit 9.1); Avraham iniciou uma nação sem saber para onde iria depois de abdicar de tudo que poderia lhe dar alguma segurança (Bereshit 12.1). Homens que presenciaram o “Caos” e a partir do Caos, foram redefinidos, reordenados para uma vida vivida nos caminhos do El Elyion...Por isso, não se desespere diante de uma situação confusa ou de um quadro de destruição, pois Aquele que Vive e Reina Eternamente tem o poder de pegar a massa disforme e fazer um vaso novo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ecos da Torre


      
   (A Torre de Babel, pintura do Sec.XVI por Bruegel)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.
Em Bereshit (Gênesis)11, temos o relato da famosa torre de Bavel (Babel), monumento idealizado e construído por um povo vindo do oriente, que chegando ao vale de Sinear resolveu se estabelecer ali e perpetuar seu nome e um local fixo, (um prenuncio de mudança de uma vida nômade para o sedentarismo).
Não pretendemos adentrar questões polêmicas sobre tal relato ser um mito criado para explicar a diversidade de idiomas ou um evento histórico que pode, inclusive, ser “comprovado” cientificamente. Nem tão pouco nos ocuparmos sobre questões arquitetônicas ou religiosas no sentido de afirmar ou rejeitar que tal construção se trataria de um zigurate (templos torres das religiões mesopotâmicas) ou algo inédito. O que gostaríamos de explorar na narrativa é a confusão de línguas (idiomas) ali mencionada e usá-la como analogia para algo muito comum nos dias de hoje, principalmente no âmbito religioso, estamos nos referindo a confusão de linguagem/comunicação (ou falta de).

Um mal chamado Bavel.

Bavel, numa perspectiva bíblica, personifica tudo aquilo que contraria a vontade do Eterno, de modo que os profetas eram levantados para advertir ao povo para não compactuar com seu “modus vivendis’, como vemos em Yirmeyahu/Jeremias 51.45 e Zacarias 2.7:

“Saí do meio dela, ó povo meu, e livrai cada um a sua alma do ardor da ira do SENHOR”.

“Ah! Sião! Escapa, tu, que habitas com a filha de babilônia.”

Poderíamos citar muitas outras passagens que demonstram a conotação negativa que Bavel evoca e toda sua má influencia na vida do povo israelita, como vemos em Yechezkel. 8.14:

“E disse-me: Ainda tornarás a ver maiores abominações, que estes fazem.
E levou-me à entrada da porta da casa do SENHOR, que está do lado norte, e eis que estavam ali mulheres assentadas chorando a Tamuz.”

  
         (Imagem de Tamuz)

Tammuz foi uma divindade importada para Judá. As origens da adoração desse deus estão perdidas, embora o nome “Dumuzi” esteja relacionado com um governante de uma das cidades-estados da Suméria antes da metade do 3º milênio a.C. Durante o período neosumeriano (Ca. 2200-1900 a.C.), os sumérios reconheceram Dumuzi como um deus e normalmente o relacionavam com a deusa Inanna. Em cultos acadianos, Dumuzi era chamado Tamuz e Inanna era identificada com Ishtar. Esses deuses são conhecidos por ambos os nomes: Dumuzi/Tamuz e Inanna/Ishtar. É importante lembrar que boa parte da religião babilônica provém das crenças sumerianas e acadianas

 Saímos de Bavel?                                                

Somos chamados a sair de Bavel e, embora a Torre construída já não existia mais na época em que os profetas faziam seus pronunciamentos, a Torre permanece como símbolo, um marco da arrogância humana em presumir que poderia alcançar “os céus” por méritos próprios. A própria palavra hebraica para Torre (מגדל) “migdal”, sugere isto, pois esta palavra é proveniente de (גדל) “gadal” que, dentre outras similaridades significa: tornar-se grande; magnificar-se.

Mas como entender isso em pleno Século XXI se esta civilização já não existe mais? Como aplicar isso em nossos dias? Responder esta questão não exige muito esforço intelectual, pois se sabemos que Bavel representa uma oposição à vontade de Elohim, a proposta é simplesmente não sermos rebeldes a sua instrução revelada ao longo do Tanach. Contudo, podemos ser mais específicos em relação a sua aplicação se observarmos a série de eventos que ocorreram antes e durante a edificação desta Torre, vejamos:

“E disseram uns aos outros: Eia, façamos tijolos e queimemo-los bem. E foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal. E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.” (Bereshit/Gênesis 11.3-4)

É interessante notarmos as expressões: façamos; queimemo-los; edifiquemos e sejamos, pois fica a nítida impressão de, (considerando a raiz da palavra “migdal”), de uma auto exaltação. De fato, a arrogância de achar que alcançaremos um lugar junto ao Eterno pelos nossos próprios méritos e não pela sua “CHESSED” (Graça/Misericórdia) têm sido desde os tempos mais antigos, a grande ilusão da humanidade... Que O Eterno não permita que esqueçamos de que:

“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim;” (Ecrá/Lamentações 3.22)

Outra situação que demonstra o quanto podemos estar sob a influencia de “migdal Bavel” (Torre de Babel), (e é esta a razão que nos levou a escrever este pequeno artigo), são as inúmeras discussões em meio a construção da Torre, onde todos falam, mas ninguém entende nada...todos se preocupam em falar como se faz para chegar “aos céus”, mas ninguém esta disposto a ouvir o que o outro tem a dizer.
Tenho entendido que quando duas ou mais pessoas só estão dispostas a falar, defender suas teses, ao invés de tentar ouvir, buscar uma comunicação (que é simplesmente uma ação em comum, pois se só há emissores ou só ouvintes, não há comunicação). Estamos reproduzindo em pleno Seculo XXI, os ecos da grande confusão ocorrida em Bavel.

Lembremos da célebre frase de Voltaire:

“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.”

Que O Eterno nos ensine não apenas a falar o que é certo, mas também a ouvir.

Shalom!!!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Reflexões sobre o Mashiach

Por Yochanan Ben Avraham

Introdução
Nos últimos dias, os ambientes virtuais das comunidades Messiânicas e Nazarenas brasileiras, andaram bem agitados...Isso por conta de uma (aparente ou fatual) "renuncia da fé em Yeshua" como o Mashiach (Messias) por um importante grupo que, ao longo dos anos se destacou pela consistência bíblica de seus artigos e estudos. Como alguém que fez parte deste referido grupo e participante do processo de restauração da emunah israelita que, diga-se de passagem, não é propriedade de nenhuma instituição ou grupo, me sinto compelido a dizer algo sobre este momento.
Antes de qualquer coisa, quero esclarecer que não pretendo, com este artigo, condenar ou absolver a quem quer que seja, mas abrir uma via de reflexão para todos aqueles que amam ao Eterno e sua santa Torah, desejando de todo coração observar seus preceitos.

Quem é o Mashiach?
Esta é a pergunta que muitos estão fazendo neste momento, só o fato de se permitir a dúvida, muitos já sentenciam à condenação o "infeliz" questionador...No entanto, considerando que a dúvida é o pavio do conhecimento, ela pode ser o caminho das certezas mais inabaláveis que alguém poderia desejar. Seja para a ratificação de Yeshua como O Mashiach, seja para sua desqualificação como tal. Isso posto, dentre tantas incertezas, uma certeza posso apresentar: "Dizer que Yeshua não é o Mashiach, é tão duvidoso quanto dizer que ele é o Mashiach".

Explico:
A discussão sobre ele ser ou não o Mashiach é antiga, bem anterior a minha geração, e os proponentes de cada uma destas opiniões, se esmeraram (e ainda se esmeram) em defendê-las. Ambas as partes apresentam  fortes argumentos bíblicos para justificarem suas posições e refutarem seus "oponentes", também se "deliciam" a apresentar testemunhos de homens que, em dado momento de suas fugazes existências, "viraram a casaca" e passaram a jogar a seu favor, homens que passaram a ser exibidos como troféus.
Se "biblicamente" é possível provar tanto uma quanto outra ideia, me pergunto se o fator condicionante para o conhecimento (ou reconhecimento) do Mashiach, seja extra bíblico...seria algo reservado a esfera mística? Obviamente tal "sugestão" causa arrepios naqueles que chamo de "biblicistas ortodoxos", ou seja, pessoas que rejeitam toda e qualquer variável que não estejam registradas nas escrituras, sem considerar o fato de que, nem tudo está nas escrituras e o próprio Elohim deu ao homem condições de deliberar sobre estas "variáveis" (vide os shoftim em D'varim/Deuteronômio 16). E para complicar um pouco mais, muito do que se diz: "Escritura", numa análise mais séria, sequer poderia ser chamada de tal coisa devido ao grande número de inserções, interpolações e etc. que os homens fizeram ao longo dos anos.

Qual é a verdade?
No campo filosófico, esta discussão (é ou não o Mashiach), pode ser enquadrada perfeitamente no que chamamos de dialética, onde uma tese (afirmação ou situação inicial), sofre uma oposição. A esta oposição denominamos antítese e deste conflito, resulta a síntese, que é uma nova perspectiva da afirmação ou situação apresentada inicialmente. Isso significa que nem a tese e nem a antítese sejam a realidade (querer afirmar que uma ou outra seja a verdade, é precipitação), se há alguma realidade, ouso dizer que o que mais se aproxima disso seria  a síntese...
Diante destes pensamentos, o que era absurdo passa a ser plausível e aos moldes de um "Brainstorming", poderíamos até cogitar: "haverá de fato um Mashiach como tradicionalmente se afirma? Ou  Mashiach seria uma condição espiritual alcançada pelo povo, onde (como um só homem) realizaria o "tikun ha olam" (retificação do mundo)?"

Estamos perdidos?
Alguém pode achar que estas palavras revelam uma condição negativa de  desorientação, mas não é isso o que acontece, vale dizer que uma das tarefas messiânica seria trazer o povo à Torah (um dos raros momentos de concordância entre os proponentes de cada pensamento), isto significa que o que devemos viver é a Torah do Eterno, ou seja, sabemos exatamente o que fazer. Identificar o Mashiach, dependendo da abordagem, pode não garantir a entrada no "olam haba" (mundo vindouro), mas seguir seus ensinamentos sim, isto fará toda a diferença.

Nossa posição
Nós estamos examinando a história, as escrituras e as diversas perspectivas messiânicas que temos encontrado. Temos muitas impressões, algumas certezas estão se configurando, mas submetemos tudo ao Eterno crendo que Ele, bendito seja, é o maior interessado neste processo. E no tempo adequado estaremos (afirmando ou reafirmando) o que temos visto e ouvido até aqui...

Que O Eterno nos abençoe com sua maravilhosa luz, guiando nos à sua verdade.