sexta-feira, 19 de julho de 2013

Sedrá para o Shabat de 20/07/13 (Bamidbar 26)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Neste shabat, estaremos comentando o perek (capítulo) 26 do Sefer Bamidbar (Livro de Números), mas ao nos depararmos com seu relato somos desafiados a buscar um sentido para ele, pois aparentemente não há nada de prático a se extrair deste conteúdo, pois temos a impressão de estarmos lendo uma “lista telefêonica”! No entanto, somos surpreendidos ao ver emergir de suas palavras, profundas lições e curiosidades que nos remetem a sérias reflexões acerca da vida israelita em todos (e para) os tempos.

Depois da morte, a Vida!

“E foi depois da mortandade...”
 Muito interessante é a forma como este capítulo se inicia, pois O Eterno ordena o censo de todos os filhos de Israel, ou seja, contar os que estavam vivos, criando uma espécie de contraponto que certamente pretende nos despertar para um entendimento mais elevado da situação. Qual, (ou quais) entendimentos, seriam esses? Primeiramente, percebemos claramente que a vida continuou, pois mesmo após a morte de toda uma geração, Israel ainda vivia e seguia sua jornada. Com isso, a Torah está dizendo: “A Vida continua!” Sim... Em que pese enfrentarmos perseguições, injúrias e todos os problemas desta vida, temos uma vocação a seguir, um caminho a percorrer, a Torah é o livro da esperança, da oportunidade de um recomeço... Ao levantar este censo, O Eterno estaria trazendo a memória dos israelitas, outro censo que foi feito algumas décadas antes, como a Torah descreve:

“Falou mais o SENHOR a Moisés no deserto de Sinai, na tenda da congregação, no primeiro dia do segundo mês, no segundo ano da sua saída da terra do Egito, dizendo: Tomai a soma de toda a congregação dos filhos de Israel, segundo as suas famílias, segundo a casa de seus pais, conforme o número dos nomes de todo o homem, cabeça por cabeça; Da idade de vinte anos para cima, todos os que em Israel podem sair à guerra, a estes contareis segundo os seus exércitos, tu e Arão.”
(Bamidbar/Números 1:1-3)

Era como se Eterno estivesse dizendo àquela geração: “Agora é com vocês!” Pois seiscentos e três mil quinhentos e cinquenta homens de uma geração, com exceção de dois (Yehoshua/Josué e Kaleb/Calebe), morreram sem adentrar a terra prometida. Diante disso, somos chamados a uma grande responsabilidade: Que tipo de legado deixaremos à geração seguinte?

Ninguém é insubstituível.

Seiscentos e três mil quinhentos e quarenta e oito homens pereceram, mas seiscentos e um mil setecentos e trinta estavam vivos para dar continuidade à história de nosso povo. O Eterno está nos ensinando que sempre haverá alguém de sua parte levando adiante sua mensagem, mesmo que alguém chamado por Ele venha falhar, desistir ou mesmo negar este chamado, Ele criará meios para que sua mensagem seja divulgada e sua vontade seja feita, pois com Yiov (Jó) pode constatar:
“Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido.”
(Yiov/Jó 42.2)

Entendemos que isto nos coloca em nosso devido lugar, pois o protagonista da história é O Eterno! Como bem disse Sha’ul (Paulo):

“Porque dEle e por Ele, e para Ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. Amém.” (Ruhomayah/Romanos 11.36)

Em outra carta, Sha’ul (Paulo) expressa isto de outra forma, ratificando ainda mais que nossa participação é ínfima diante da grandeza desta obra:

“Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?
Eu plantei, Apolo regou; mas O Eterno deu o crescimento.
Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas YHWH, que dá o crescimento.” (Curintayah alef/1 Coríntios 3.5-7)

Na história israelita temos vários exemplos de que ninguém foi insubstituível: Eli foi substituído por Sh’muel (Samuel); Sha’ul por David; Elyiahu (Elias) por Elisha (Eliseu)...Isso deveria ser entendido por aqueles que exercem algum tipo de liderança que a história não depende deles, mas do Eterno. Muitos foram chamados a desempenhar algum papel no serviço ao Eterno, mas em algum momento se envaideceram, achando-se auto-suficientes e acabaram como Shimshon que, sem perceber foi abandonado pela Ruach Elohim (Shoftim /Juízes 16.20) e consequentemente ficou cego.

Se não honramos nossos pais...

A contagem de cada tribo dos filhos de Israel no censo deste capítulo 26 acaba comprovando algo que a Torah ensina de maneira bem enfática, Pai e mãe devem ser honrados, pois do contrário não somos abençoados.
Na relação, percebemos que as tribos com menos homens (filhos) são Shimon e Levi, respectivamente com 22.200 e 23.000 indivíduos contados. Estes dois foram justamente os filhos de Ya’akov (Israel), que trouxeram um grande transtorno ao nosso patriarca:

“E aconteceu que, ao terceiro dia, quando estavam com a mais violenta dor, os dois filhos de Jacó, Simeão e Levi, irmãos de Diná, tomaram cada um a sua espada, e entraram afoitamente na cidade, e mataram todos os homens.
Mataram também ao fio da espada a Hamor, e a seu filho Siquém; e tomaram a Diná da casa de Siquém, e saíram.” (Bereshit/Gênesis 34.25-26)

“Então disse Jacó a Simeão e a Levi: Tendes-me turbado, fazendo-me cheirar mal entre os moradores desta terra, entre os cananeus e perizeus; tendo eu pouco povo em número, eles ajuntar-se-ão, e serei destruído, eu e minha casa.” (Bereshit/Gênesis 34.30)

O Tanach nos deixa entender que a quantidade de filhos é sinal de benção, como podemos inferir do Tehilim (Salmos) 127:

“Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.
Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade.
Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava...” (Tehilim/Salmos 127.3-5)

E ainda:

“Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos.
Pois comerás do trabalho das tuas mãos; feliz serás, e te irá bem.
A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa.
Eis que assim será abençoado o homem que teme ao Senhor.”
(Tehilim/Salmos 128.1-4)

Seria só coincidência o fato das tribos de Levi e Shimon terem “menos filhos”?

O Mashiach está no meio!

A relação do censo nesta sedrá traz uma curiosidade. Ao lermos a ordem das doze tribos, percebemos que ela não obedece a ordem de nascimento dos filhos de Israel, e isto é muito interessante, pois vemos que Yosef (José), o décimo primeiro filho de Ya’akov (Israel), aparece na lista como o sétimo nome e isto é muito significativo, já que nenhuma tribo recebe propriamente o seu nome, mas o nome de seus filhos (Menashe e Efraim), pois Ya’akov, seu pai havia reivindicado seus filhos como sendo dele:

“E aconteceu, depois destas coisas, que alguém disse a José: Eis que teu pai está enfermo. Então tomou consigo os seus dois filhos, Manassés e Efraim.
E alguém participou a Jacó, e disse: Eis que José teu filho vem a ti. E esforçou-se Israel, e assentou-se sobre a cama.
E Jacó disse a José: O El Shadai me apareceu em Luz, na terra de Canaã, e me abençoou.
E me disse: Eis que te farei frutificar e multiplicar, e tornar-te-ei uma multidão de povos e darei esta terra à tua descendência depois de ti, em possessão perpétua.
Agora, pois, os teus dois filhos, que te nasceram na terra do Egito, antes que eu viesse a ti no Egito, são meus: Efraim e Manassés serão meus, como Rúben e Simeão;”
(Bereshit/Gênesis 48.1-5)

Sabemos que Yosef é um arquétipo do Mashiach (Messias), e ao encontrá-lo na relação justamente como o sétimo nome da lista e considerando que o shabat é o sétimo dia, o sagrado dia de descanso. Entendemos que o Mashiach trará descanso! Mas não é só isso, o nome de Yosef divide a relação das tribos exatamente no meio... Seis nomes antes e seis depois! Seria isso um sinal de que o Mashiach dividiria as opiniões em Israel e/ou dividiria a história de Israel em antes e depois dele? De qualquer forma, considerando Yosef como figura messiânica, percebesse que ele, o Mashiach andaria entre seus irmãos, como um legítimo israelita.


Shabat shalom!!!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sedrá para o Shabat de 13/07/13 (Bamidbar 25)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Embora o capítulo vinte e cinco não seja tão extenso, ele está repleto de lições e curiosidades que nos inspira à reflexão. Reflexão que nos leva a avaliar a qualidade de nossa adoração e fidelidade ao Eterno, pois surge no cenário Pinchas, neto de Aharon, cuja atitude trouxe expiação aos filhos de Israel.

Entre a assimilação e a redenção.

“E esteve Israel em Shitim, e começou o povo a errar com as filhas de Moab. E convidaram o povo aos sacrifícios de seus deuses, e o povo comeu e prostrou-se aos seus deuses.” (Bamidbar/Números 25.1 e 2)

Muito provavelmente, não se percebe a relevância do local em que Israel estava antes de “errar com as filhas de Moab”. O que afinal isso poderia significar? Se considerarmos o percurso que Israel tomaria para suas grandes conquistas, que culminaria com a posse da Terra prometida, a relevância é total e os significados, profundos. Vejamos: Shitim é o plural da palavra Shitah (acácia), madeira utilizada para confecção de diversos utensílios do Mishkan (Tabernáculo). Por estar no plural, acredita-se que Israel estava acampado nas proximidades de um bosque ou algo próximo a isso. Segundo alguns estudiosos, Este local foi o acampamento de Israel até vésperas da travessia do Yarden (Jordão) e posterior conquista de Yericho (Jericó). De fato, podemos constatar isto no Sefer ha Yehoshua (Livro de Josué):

“E Josué, filho de Num, enviou secretamente, de Shitim, dois homens a espiar, dizendo: Ide reconhecer a terra e a Jericó. Foram, pois, e entraram na casa de uma mulher prostituta, cujo nome era Raabe, e dormiram ali.” (Yehoshua/Josué 2.1)

“Levantou-se, pois, Josué de madrugada, e partiram de Shitim, ele e todos os filhos de Israel; e vieram até ao Jordão, e pousaram ali, antes que passassem.”     (Yehoshua/Josué 3.1)

O que estamos tentando dizer, é que o mesmo local, onde os israelitas acamparam, lugar que determinava o limite entre a peregrinação no deserto e a conquista da terra prometida, foi o ‘palco’ de uma grande tragédia, pois os filhos de Israel se deixaram assimilar pela cultura idólatra dos moabitas provocando a ira do Eterno! Foi em Shitim, à beira de sua redenção, que Israel sentiu as conseqüências da assimilação, foi quando negligenciou sua vocação e, como diz o passuk (versículo) três, “juntou-se a Baal-Peor”. Diante deste fato, vem a nossa memória as palavras atribuídas ao emissário Sha’ul (Paulo) na carta aos talmidim (discípulos) em Roma:

“E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé.”
(Ruhomayah/ Romanos 13.11)

Cremos que estamos muito perto de nossa “geulá” (Redenção), por isso a atenção deve ser dobrada para que não nos desviemos para a direita ou esquerda da Torah do Eterno... Vale lembrar que foi, mui provavelmente, em Shitim que O Eterno disse isto a Yehoshua:

“E sucedeu depois da morte de Moisés, servo do SENHOR, que o SENHOR falou a Josué, filho de Num, servo de Moisés, dizendo:
Moisés, meu servo, é morto; levanta-te, pois, agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel.
Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado, como eu disse a Moisés.
Desde o deserto e do Líbano, até ao grande rio, o rio Eufrates, toda a terra dos heteus, e até o grande mar para o poente do sol, será o vosso termo.
Ninguém te poderá resistir, todos os dias da tua vida; como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei nem te desampararei.
Esforça-te, e tem bom ânimo; porque tu farás a este povo herdar a terra que jurei a seus pais lhes daria.
Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo, para teres o cuidado de fazer conforme a toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para que prudentemente te conduzas por onde quer que andares.
Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido.” (Yehoshua/Josué 1.1-8)

A astúcia de Bil’am.

Nos três capítulos anteriores, viu-se que Bil’am foi contratado por Balak para amaldiçoar a Israel, mas ao invés disso ele o abençoava e disse a célebre frase:

“Como amaldiçoarei a quem não amaldiçoou YHWH?” (Bamidbar/Números 23.8A)

Bil’am percebeu que a única forma de Israel ser amaldiçoado, é quando este transgride a Torah, pois está escrito:

“Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz de YHWH Eloheicha (teu Elohim), para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão...”
(D’varim/Deuteronômio 28.15)

Sabedor disso, conforme a Torah infere no capítulo 31 de Bamidbar, Bil’am orquestrou um plano que levou os israelitas a pecarem contra o Eterno:

“E Moisés disse-lhes: Deixastes viver todas as mulheres?
Eis que estas foram as que, por conselho de Bil’am (Balaão), deram ocasião aos filhos de Israel de transgredir contra o SENHOR no caso de Peor; por isso houve aquela praga entre a congregação do SENHOR.” (Bamidbar/Números 31.15-16)

Não devemos temer os feiticeiros, devemos temer ao Eterno e cuidar para que não venhamos ceder aos maus impulsos de nossa natureza carnal.

O culto a Baal-Peor.

Em muitos comentários rabínicos e segundo alguns estudiosos, o culto a Baal-Peor era um dos mais populares naquela região senão o mais popular! E as mais estranhas e absurdas práticas são descritas como parte integrante do ritual a esta entidade. De acordo com a tradição talmúdica, por exemplo, a adoração a este ídolo envolvia práticas escatológicas (nojentas, asquerosas, repugnantes e etc.) (Sifri; San’hedrin 60B, 64A; Rashi). A enciclopédia judaica ainda diz o seguinte:

A adoração a esse ídolo consistia em expor a parte do corpo que todas as pessoas geralmente tomam o maior cuidado para esconder. Conta-se que em uma ocasião, um governante estrangeiro veio até o lugar onde Peor era adorado, para sacrificar a ele, mas quando ele ouviu falar dessa prática, ele fez com que seus soldados atacassem e matassem os adoradores deste deus (Sifre, Bamidbar. 131. San’hedrim 106)

Considerando estas informações, temos a impressão de que, quanto mais depravada a ação do adorador, maior seria o nível de devoção. Sendo assim, fazendo uma analogia com os dias de hoje, parece-nos que este ídolo continua muito popular, pois ‘seus adeptos’ podem ser encontrados ainda hoje em tempo e espaço bem distante do relato bíblico. As músicas carregadas de letras infames, os filmes cada vez mais insinuantes na perversão do sexo são pequenas amostras de uma degradação dos valores humanos, onde os artistas mais se parecem com as prostitutas cultuais das antigas civilizações do que qualquer outra coisa.

Pinchas e a expiação do Povo.

A Torah descreve as conseqüências do pecado cometido pelo povo, vinte e quatro mil pessoas morreram em decorrência da praga que se abateu sobre Israel. Mas a coisa poderia ser ainda pior se o neto de Aharon, Pinchas ben Eleazar ha Cohen (Pinchas filho de Eleazar o sacerdote) não interviesse na situação!

“E eis que veio um homem dos filhos de Israel, e trouxe a seus irmãos uma midianita, à vista de Moisés, e à vista de toda a congregação dos filhos de Israel, chorando eles diante da tenda da congregação.
Vendo isso Finéias, filho de Eleazar, o filho de Arão, sacerdote, se levantou do meio da congregação, e tomou uma lança na sua mão;
E foi após o homem israelita até a tenda, e os atravessou a ambos, ao homem israelita e à mulher, pelo ventre; então a praga cessou de sobre os filhos de Israel.”
(Bamidbar/Números 25.6-8)

O zelo deste homem lhe rendeu um memorial eterno, sua atitude “radical” demonstra que quando se trata de pecado, devemos muitas vezes tomar uma atitude drástica como ensinou Rabi Yeshua:

“E Eu vos digo, Qualquer que olhar para uma mulher no intuito de cobiçá-la, já cometeu adultério com ela em seu coração.
E se o teu olho direito te seduz arranca-o, e lança-o de ti; porquanto é melhor para ti que um dos teus membros pereça, do que todo o teu corpo seja lançado no Gei-Hinnom.
E se tua mão direita te seduz corta-a, e lança-a de ti; pois é mais proveitoso a ti que um dos teus membros pereça, do que todo o teu corpo ser lançado no Gei-Hinnom.”
(Matitiyahu/Mateus 5.28-30)

É interessante a Torah afirmar que o zelo de Pinchas trouxe expiação sobre o povo de Israel. Este zelo foi evidenciado pelo derramamento de sangue dos transgressores. Numa perspectiva mais imediata, percebemos que no que diz respeito à expiação do povo, ou seja, quando é o coletivo que necessita de expiação, sempre vemos a presença do sangue como o elemento expiatório... O que não acontece quando se trata de pecado individual, pois para estes existem outros meios expiatórios. Este aspecto merece uma maior atenção e um estudo à parte para que sejam esclarecidas as implicações que este detalhe evoca. Porém não será neste comentário que abordaremos a questão.

Eliminando a falsa adoração.

Já mencionamos em outros estudos que na cultura semita, um nome é mais do que um substantivo próprio, um nome traz consigo os aspectos de quem o recebeu. É por isso que se diz que mudança de nome é mudança de destino. Neste caso, quando Pinchas mata o casal que afronta a santidade do arraial desprezando a palavra do Eterno, ele estava eliminando alguns aspectos que contaminavam todo o povo! Que aspectos seriam estes? Descobriremos isso observando o nome do casal transgressor:

“E o nome do israelita, que foi morto com a midianita, era Zimri, filho de Salu, príncipe da casa paterna dos simeonitas.
E o nome da mulher midianita morta era Cosbi, filha de Zur, cabeça do povo da casa paterna entre os midianitas.” (Bamidbar/Números 25.14-15)

Vamos analisar os respectivos nomes: o nome “Zimri” tem com raiz as letras zain, mem e resh a mesma raiz da palavra “zimra”, que significa canção; música. Quanto a mulher, o seu nome era “Kozbi” cuja raiz é Kaf, zain e beit, a mesma raiz da palavra mentira, dando um sentido de ser achado mentiroso; ser em vão. Logo, se unirmos os aspectos de cada nome envolvido teremos um “cântico mentiroso”; “um cântico vão”. Com isso em mente, vejamos o Tehilim/Salmos 100:

 “Celebrai com júbilo ao SENHOR, todas as terras.
Servi ao SENHOR com alegria; e entrai diante dele com canto.”
(Tehilim/Salmos 100:1-2)

O cântico é descrito aqui como a forma introdutória de se apresentar ao Eterno, percebe-se então que Pinchas estava limpando Israel de uma adoração mentirosa, de um louvor enganoso e isso está em plena harmonia com os ensinamentos de Yeshua que disse:

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.
O Eterno é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (Yochanan/João 4.23-24)

Esta é uma grande lição que a Torah nos ensina. Não é apenas cantar, dançar e etc. mecanicamente. Nossa expressão de adoração ao Eterno tem que ter vida! Do contrário estaremos enquadrados naquilo que Yeshayahu (Isaías) disse:

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído;
Portanto eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; porque a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá.” (Yeshayahu/Isaías 29.13-14)

Que O Eterno suscite em nós um zelo como o de Pinchas, para que a praga não se instale em nossas vidas e que não sejamos assimilados às portas de nossa redenção.


Shabat Shalom!!!

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sedrá para o Shabat de 06/07/13 (Bamidbar 24)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Dando continuidade a sequência de estudos do sefer Bamidbar, estaremos analisando neste Shabat o perek (capítulo) 24, onde Bil’am ainda é o “protagonista” nos eventos que se seguem. Com certeza, Bil’am é um dos personagens mais controversos do Tanach, pois sua instrumentalidade peculiar varia entre o certo e o duvidoso levantando muitas questões interessantes para o estudante das escrituras. A sensibilidade deste místico contrasta com sua conduta e, provavelmente por isso, seu perfil seja tão curioso.

Teshuvah. Uma questão de sensibilidade somente?

“E viu Bil’am que era bom aos olhos de YHWH, que abençoasse Israel...”

Logo na primeira frase deste capítulo, salta aos nossos olhos a percepção que Bil’am teve da relação entre O Eterno e Israel. Apesar dele ter sido contratado por um inimigo (Balak) para fazer o mal a Israel, aparentemente ele não estava tão empenhado como seu contratante, pois teve sensibilidade para entender que a relação entre YHWH e Seu povo é de amor! De fato, vários profetas ao longo da história israelita afirmaram esta verdade, vejamos algumas destas expressões:

“Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho.”
(Oshea/Oséias 11.1)

“Exultai, ó céus, e alegra-te, ó terra, e vós, montes, estalai com júbilo, porque o SENHOR consolou o seu povo, e dos seus aflitos se compadecerá.
Porém Sião diz: Já me desamparou o SENHOR, e o meu Senhor se esqueceu de mim.
Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti.
Eis que nas palmas das minhas mãos eu te gravei; os teus muros estão continuamente diante de mim.” (Yeshayahu/Isaías 49.13-16)

“Naquele tempo, diz YHWH, serei o Elohim de todas as famílias de Israel, e elas serão o meu povo.
Assim diz o SENHOR: O povo dos que escaparam da espada achou graça no deserto. Israel mesmo, quando eu o fizer descansar.
Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí.
Ainda te edificarei, e serás edificada, ó virgem de Israel! Ainda serás adornada com os teus tamboris, e sairás nas danças dos que se alegram.
Ainda plantarás vinhas nos montes de Samaria; os plantadores as plantarão e comerão como coisas comuns.
Porque haverá um dia em que gritarão os vigias sobre o monte de Efraim: Levantai-vos, e subamos a Sião, a YHWH Eloheino.” (Yermiyahu/Jeremias 31.1-6)

Esta sensibilidade deveria causar em Bil’am uma “Teshuvah” (arrependimento) verdadeira, mas, infelizmente, não é isso que veio a acontecer conforme relata alguns tratados e midrashim da literatura rabínica e também no livro de Guilyana (Apocalipse).
Diante disso, conforme o enunciado deste tópico surge a pergunta se apenas sensibilidade para questões espirituais é suficiente para uma teshuvah verdadeira, considerando a vida de Bil’am, a resposta é óbvia: NÃO!
Bil’am, disse ser alguém que via e ouvia as palavras de YHWH... Mas mesmo assim, continuou associado à Balak. Deveríamos então supor que quem se diz conhecedor da Torah (Palavra de YHWH) deve manter “sociedade” com àqueles que são contrários a ela ou não? Fica a pergunta para reflexão.

Iluminado, visionário, cego ou o quê?

Não podemos dizer ao certo, qual dos adjetivos acima melhor se aplica a Bil’am, pois encontramos nos mais diversos escritos rabínicos, diferentes definições para este personagem, vejamos:

“Iluminado” (Ramban; Midrash Agadá)
“Olho vendo o futuro” (Lekach tov)
“Olho que vê” (Targum; Saadia)
“Olho aberto” (Rashbam; Radak, Sherashim; Rashi)
“Insone” (Ibn Janach)
“Mau Olho” (Zohar 1:68b)
“Deslocado” (Rashi)
“Cego” (San’hedrin 105a; Nidá 31a)

Todas estas diferentes definições confirmam o quanto Bil’am era controverso, pois não há consenso entre as opiniões dos grandes comentaristas da Torah... Provavelmente porque cada um abordou um aspecto da passagem, uns se detendo simplesmente no texto e outros ao personagem.
Afinal, quem era Bil’am? É difícil concluir... Mas ele se definiu como “alguém que ouvia os dizeres de YHWH e que tinha uma visão do Poderoso”. A expressão שתם העין “shetum haain”, pode significar “o Olho aberto” considerando que “shetum” vem de “shatam” (abrir) que é escrito com os mesmos caracteres (Shin, Tav e Mem sofit), mas esta é uma auto definição, ou seja, era como Bil’am se definia, e não uma definição da Torah, até porque ele é considerado como a ‘antítese’ de Moshe nas diversas obras rabínicas como citado na enciclopédia judaica:

“A Residência de Balaão era Padan-aram, mas sua fama como "intérprete de sonhos" deu a sua cidade o nome de "Petor" ("interpretar"). Sua grande sabedoria fez-lhe presunçoso, e tornou-se um homem tolo, insensato — "ben be'or" ("enganar"; Targ, Yer. a xxii nm. 5). A história da guerra de Moisés com os etíopes em tempos antigos , foi relatada por Josefo ("Ant." ii. 10) segundo fontes helenísticas, foi conectada a Balaão. Balaão (veja Sanh. 106a; Soah 11a; Jellinek, ii "B. H.". 3; "Crônicas de Jerameel", traduzido por Gaster, xliv. 9, xlvi. 15) foi um dos três conselheiros consultados pelo faraó em relação aos Hebreus...”

 O ritual e as profecias de Bil’am.

Curiosa também é a forma como Bil’am tinha “as visões do Todo-Poderoso”: caindo num êxtase de meditação (Targum; Rashi; Ibn Ezra); envolvendo meditação (Ralbag; Abarbanel). Alguns dizem que isto envolvia práticas sexuais com animais (San’hedrin 105ª); Algumas fontes mantém que Bil’am realmente caiu ao chão durante a profecia (Lekach tov, Josefus/ Antiguidades 4:6:5) e isto é muito interessante, pois está em harmonia com alguns relatos do Tanach e também no livro de Guilyana (Apocalipse), são eles: Sh’muel alef (1 Samuel) 19.18-24; Yechezkel (Ezequiel) 1.28; Daniel 8.17 e 18; Guilyana (Apocalipse)1.9-17. A partir disto, fica a impressão de que as palavras que Bil’am proferiu acerca de Israel e seu futuro vieram de uma experiência extática, ou seja, de um momento de êxtase proporcionado pelo Espírito (Ruach) de Elohim como descreve o passuk (versículo) dois deste capítulo.
Foi neste estado que Bil’am, sob a influência da Ruach Elohim, proferiu as primeiras palavras do “Ma Tovu” cantado a cada Shabat em praticamente todas as sinagogas espalhadas mundo afora! Foi neste estado que ele anunciou a vinda de um rei que suplantaria Agag (que provavelmente seja um título para os reis amalequitas e não um nome próprio), como referência aos primeiros reis israelitas Saul e David. Finalmente, é neste estado de êxtase que Bil’am parece prever um rei que iria ser maior que os demais reis israelitas (Vers. 17-24). Sobre este particular, nos parece que o tempo do fim é anunciado e, como os profetas do Tanach, começa a sentenciar os inimigos de Israel. Se espanta com os “juízos contra os povos” (vers. 23) e por fim faz uma previsão extraordinária ao dizer:

  “E as naus virão das costas de kitim e afligirão a Assur; também afligirão a Éber; que também será para destruição.” (Bamidbar/Números 24.24)

Isto é extremamente interessante porque os “Kitim” foram identificados como os conquistadores que chegavam dos lados do mar Mediterrâneo 1 Mac 1,1; 8,5; Dn 11,30.  (Collins 1998 93; Hadas-Lebel 1990 40-43; 339-341) Ou seja, gregos e romanos. Corroborando com essa afirmativa, vemos que nos pesharim, (método essênio de Interpretações das profecias bíblicas), os “kitim” eram identificados como o exército romano .Éber aqui mencionado seria uma referencia aos seus descendentes e não propriamente ele, portanto, os hebreus! Teria Bil’am visto o cativeiro de Israel sob Roma?

O Mashiach e o misticismo.

Outra curiosidade despertada nesta sedrá é o fato de Bil’am prever, ou mesmo, reconhecer os ‘Messias’ israelitas somente sob Ruach Elohim. E ao longo da história israelita, foi a partir de experiências desta natureza, que alguns renomados rabinos fizeram declarações (confissões) que até os dias de hoje causam certo mal estar nos círculos mais tradicionais do judaísmo. Refiro-me, dentre outros, a: Rabino Daniel Zion; Rabino Yechiel Tzvi Lichtenstein e Rabino Yitzchak Kaduri (que deixou um bilhete para ser lido um ano após sua morte, o qual dizia ter o nome do mashiach, causando grande discussão entre seus talmidim/discípulos). Todos eles eram místicos proeminentes e suas biografias podem ser exploradas pela net, pois são amplamente divulgadas contendo, inclusive, obras acessíveis a todos os interessados.


Considerações finais.

Algumas curiosidades sobre Bil’am podem ser encontradas com mais detalhes na enciclopédia judaica abaixo, estão transcritas algumas delas:

“Balaão é representado como um dos sete profetas pagãos; os outros seis seriam o pai de Balaão, Yov (Jó) e seus quatro amigos (B.b. 15b). Gradualmente, ele adquiriu uma posição entre os pagãos tão exaltada como a de Moisés entre o povo escolhido (Num. R. xx. 1). Primeiramente, um mero intérprete de sonhos,  mais tarde  Balaão tornou-se um mágico, até que finalmente o espírito de profecia desceu sobre ele (IB. 7). Ele possuía o dom especial de ser capaz de determinar o momento exato em que O Eterno estria irado — um dom outorgado a nenhuma outra criatura. Balaão pretendia amaldiçoar os israelitas neste momento da ira; mas O Eterno propositadamente conteve a sua ira para confundir o perverso Profeta e salvar a nação do extermínio (Ber. 7a). Quando a lei foi dada a Israel, uma voz poderosa abalou os fundamentos da terra; para que todos os reis tremessem e em sua consternação reuniram-se com Balaão, perguntando se esta convulsão da natureza pressagiavam um segundo dilúvio; mas o Profeta assegurou-lhes que o que eles ouviram era a voz do todo poderoso que dava a Lei sagrada ao seu povo, os filhos de Israel (Zeb. 116).
No entanto, é significativo que, na literatura rabínica, o epíteto "Ana" (maligno) muitas vezes é anexado ao nome de Balaão (Ber. l.c.; Taanit 20a; Num. R. xx. 14). Ele é retratado como cego de um olho e coxo em um pé (San. 105a); e seus discípulos (seguidores) distinguem três qualidades moralmente corruptas, um mau-olhado, altivez e avareza — qualidades a exatamente opostas daquelas que caracterizam os discípulos de Abraão (AB. v. 19; compare Tan., Balaque, 6). Balaão recebeu a comunicação divina à noite somente — uma limitação que se aplica também a outros profetas pagãos (Num. R. xx. 12).”

Outra declaração interessante encontra-se no tratado San’hedrin 10.2:90A, onde diz que ele conheceu sua morte na idade de trinta e três anos e que ele não teria parte alguma no “Olam habá” (mundo vindouro). Esta declaração pode ser uma forma de associar Yeshua (que segundo a tradição cristã teria morrido aos trinta e três anos) a este personagem tão odiado, já que ele, igualmente tambén era odiado por muitos judeus...Esta declaração revela também que existe uma contradição entre esta suposta idade da morte com a ideia de Bil'am ter sido um dos conselheiros de Faraó.

Shabat Shalom!!!



sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sedrá para o Shabat de 29/06/13 (Bamidbar 23)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

A sequência de estudos do sefer Bamidbar feitos a cada Shabat nos trouxe hoje ao momento em que Balak, rei de Moav, inicia seus rituais de maldição contra os filhos de Israel sob a regência de Bil’am (Balaão). Como é de nosso costume, gostamos de enfatizar que, apesar da distância tanto de tempo quanto de espaço, sempre temos algo de prático para aprender na Torah que serve para nos esclarecer e orientar em diversos aspectos de nossa jornada. Dito isto, vamos aos comentários.

O empenho dos adversários.

O número sete traz consigo muita especulação é como se ele tivesse vida própria! De fato, são tantas curiosidades envolvendo o número sete, que fica difícil acreditar que todas as ocorrências nas mais diversas situações da vida humana, seja coincidência. Dentre os muitos simbolismos do número sete, encontra-se o de que ele representa a plenitude, a perfeição, algo que não precisa de complemento... E como o mundo foi criado em seis dias, sendo o sétimo o dia de shabat (descanso), alguns associam o número sete ao mundo físico, as obras que se fazem na terra no “olam hazé” (Tempo atual ou mundo de hoje). Pegando “carona” neste entendimento, temos uma leitura interessante da edificação dos sete altares para amaldiçoar Israel, vejamos: Considerando os símbolos propostos, vemos que Balak “fez de tudo” para que seu intento tivesse êxito, construir sete altares nos sugere que houve uma plenitude de esforço para que Israel fosse amaldiçoado! Diante disso, não podemos ser negligentes, pois a história nos mostra (como vimos no estudo do shabat passado) que os inimigos de Israel, a “descendência da serpente” têm se empenhado em “nos riscar do mapa”, ao ponto de frases como: “Se a minha teoria da relatividade triunfar, serei alemão; se ela falhar, serei um judeu.” do renomado físico judeu, Albert Einstein serem ditas.
Diante disso, nada é mais urgente para um filho de Israel do que ser sóbrio e vigilante, para não cairmos nas ciladas armadas pelo caminho.

O Eterno não se “vende”!

Outra lição que aprendemos nesta sedrá é que, esforço sacrificial não garante que teremos nossas petições atendidas! Infelizmente, o número de pessoas induzidas pelos “Balaões” modernos a acreditarem que O Senhor as atenderá só porque tudo o que era possível foi feito, têm aumentado... Estas não sabem, (ou esquecem) que O Eterno não está comprometido com quem não assumiu o compromisso de observar sua Torah. O salmista escreveu:

“Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração.”
                                                                                                     (Tehilim/Salmos 37.4)

Ao vivermos diante do Eterno, conformados à sua Lei, certamente desfrutaremos de bens cujos valores não podem ser mensurados por quem vive voltado para o “aqui e agora”. Esta experiência também foi relatada pelo salmista:

 “Como são felizes os que obedecem aos seus estatutos e de todo o coração o buscam!”                        (Tehilim/Salmos 119.2)

“Muita paz têm os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço.”
                                                                                                (Tehilim/Salmos 119.165)

Como amaldiçoar o que O Eterno não amaldiçoa?

Este questionamento de Bil’am (Balaão) traz um profundo ensinamento que, a nosso ver, elimina diversas “paranóias” em que muitos filhos de Israel são acometidos. Muitos andam de um lado para o outro tentando entender porque as coisas “não dão certo” e etc., para explicar isto não é preciso nenhuma formula mirabolante, basta estarmos atento ao que diz a Torah:

“Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz de YHWH teu Elohim, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão:”
                                                                   (D’varim/Deuteronômio 28.15)

Simples assim! O único meio de um filho de Israel estar sob maldição é quando ele passa a desobedecer as palavras do Eterno, ou seja, Sua Lei! Não devemos temer feiticeiros, impérios ou o que quer que seja, devemos temer ao Eterno, cuidando em não transgredirmos suas mitzvot (mandamentos) como disse Yeshayahu (Isaías):

 “Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro.” 
                   (Yeshayahu/Isaías 8.13)

Isto não significa, necessariamente, que devemos viver oprimidos por causa da Torah... Mas que nossa atenção esteja em observá-la, pois fazendo isso não haverá o que temer, como foi escrito:

“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.
Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.
Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará.”
                                                                                            (Tehilim/Salmos 1.1-3)

A Torah é o “manual do bem viver”, tanto física quanto espiritualmente; é a formula para o bom relacionamento consigo mesmo, com o próximo e com o Eterno! Quando experimentarmos isso na prática, não apenas no intelecto, ouso dizer que muitas pessoas sofrendo de psicopatologias serão curadas.

Nada muda, se você não muda.

Todos já devem ter ouvido esta frase, e este princípio parece se corroborado pelo que podemos observar nesta sedrá. Vejamos alguns passukim do texto:

“Então Balaque lhe disse: Rogo-te que venhas comigo a outro lugar, de onde o verás; verás somente a última parte dele, mas a todo ele não verás; e amaldiçoa-mo dali.”
                                                                                                               (Bamidbar/Números 23.13)

“Disse mais Balaque a Balaão: Ora vem, e te levarei a outro lugar; porventura bem parecerá aos olhos de Deus que dali mo amaldiçoes.”
                                                                 (Bamidbar/Números 23.27)

Como podemos ver, Balak mudou de lugar duas vezes após ver suas tentativas de amaldiçoar a Israel serem frustradas, ele acreditava que mudar de lugar mudaria sua sorte fazendo ele ser bem sucedido! Certamente acreditava que seus fracassos estavam relacionados ao lugar que estava e não em si mesmo, nas suas idéias, nos seus planos.
A experiência de Balak serve como um exemplo para diversas situações, excetuando, é claro, o aspecto nefasto do episódio, vemos que não adianta mudar de lugares externos se mudanças não forem executadas em nosso interior! Esta é uma grande lição a ser aprendida... As mudanças externas são apenas medidas paliativas que alimenta uma falsa esperança de solução para seus medos, suas dúvidas, seus problemas e etc. Talvez, o imperativo “Nascer de novo” dito à Nakdimon (Nicodemus) por Rabi. Yeshua (Ver Yochanan/ João 3 1-7), ilustre bem esta necessidade...


Shabat Shalom !!!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Sedrá para o Shabat de 22/06/13 (Bamidbar 22)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

O estudo da sedrá deste shabat trás mais uma porção clássica da Torah, o episódio de Balak, rei de Moav e Bil’am, o “misterioso” profeta. Certamente não conseguiremos elucidar todas as questões que emergem do texto, mas lições preciosas podem ser tiradas, além de outras explicações que podem nos ajudar entender certas situações enfrentadas por “Am Israel” (Povo de Israel).

Ódio gratuito?

Vejamos o texto:

“Depois partiram os filhos de Israel, e acamparam-se nas campinas de Moabe, além do Jordão na altura de Jericó.
Vendo, pois, Balaque, filho de Zipor, tudo o que Israel fizera aos amorreus,
Moabe temeu muito diante deste povo, porque era numeroso; e Moabe andava angustiado por causa dos filhos de Israel.”
(Bamidbar/Números 22.1-3)

Vemos que Balak, rei de Moav só em ver o acampamento hebreu, é tomado por um medo injustificável, pois os israelitas estavam apenas acampados! Não houve nenhuma ameaça formal por parte destes para Balak intentasse atacá-los... Seria só a presença física dos israelitas a causadora deste efeito? Tentaremos elucidar esta questão mais adiante.

A história do povo hebreu é regada a lágrimas e sangue. Conseqüência de um ódio que, racionalmente, não se encontra motivos para tal. Por diversas vezes nosso povo foi banido de nações, agredido, capturado, exilado, humilhado, roubado e etc., contudo, por causa da fidelidade do Eterno, estamos aqui, ainda vivos. Sobrevivemos as mais diversas atrocidades e ocupações estrangeiras como as que apontamos abaixo:

Egito (Todo povo hebreu).
Assíria (Reino do Norte/10 tribos/ Efraim)
Babilônia (Reino do Sul/ Judá)
Macedônia.
Roma.

Na galut (exílio), sofremos ainda diversas expulsões e massacres, dentre os quais, destacamos:

694-711
Todos os judeus sob o governo Visigótico em Espanha foram declarados escravos, suas possessões confiscadas e a Religião Judaica declarada ilegal.

1012
O imperador Henry II expulsa os judeus de Mainz, o começo das perseguições contra os judeus na Alemanha.

1096-99
Primeira cruzada: Os cruzados massacram os judeus de Rhineland (1096).


1182
O rei Philip Augustus da França decreta a expulsão dos judeus de seu reino e do confisco de suas propriedades.

1190
Manifestações anti-Judaica na Inglaterra: massacre em York, e outras cidades.

1242
Queima pública do Talmud em Paris.

1306
Expulsão dos judeus da França.

1321-22
Novamente expulsão do reino da França.

1470
Judeus expulsos da Bavária estabeleceram-se na Turquia.

1478
Foram vítimas da Inquisição espanhola

1492
Foram expulsos da Espanha. Cinco anos mais tarde, era a vez de Portugal enviar todos os judeus para fora do país.

Na Alemanha, em 1547, uma das grandes vozes do anti-semitismo partiu de Martinho Lutero, o monge que iniciou o movimento de reforma protestante. É dele um dos manifestos contra os judeus conhecido como “Sobre os judeus e suas mentiras”.

Como podemos ver, não foi Adolf Hitler (que seja esquecido!) o único a empreender dor e sofrimento ao nosso povo, ele teve seus “arquétipos” ao longo da história.

Mas o que afinal causa tanto ódio contra os israelitas? Haveria alguma explicação plausível? Sobre isso alguns comentaristas trouxeram razões muito interessantes... Vejamos:
Para eles, existe uma conexão entre a palavra ódio em hebraico שנא (Siné) com a palavra Sinai (סיני), local onde o povo assumiu o compromisso de cumprir a Lei do Eterno (Torah). Ou seja, a partir do momento em que Israel é manifesto como povo peculiar do Eterno (ver Shemot/Êxodo 19.5 e 6) o mundo passa a odiá-lo! Corroborando com isso, temos alguns textos na Brit Chadashah (conhecido como Novo Testamento) os quais dizem o seguinte:

“Sabemos que somos do Eterno, e que todo o mundo está no maligno.”
(Yochanan alef/1 João 5.19)

“... A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.
Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas.
Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Elohim.”
(Yochanan/João 3.19-21)

Vale lembrar que “Luz” e “Verdade” são designações para a Lei/Torah do Eterno como podemos constatar:

“Porque o mandamento é lâmpada, e a lei é luz; e as repreensões da correção são o caminho da vida.”
(Mishlei/Provérbios 6.22)

“A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade.”
(Tehilim/Salmos 119.142)

O Rabi Yeshua também ensinou que:

“Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.”
(Matitiyahu/Mateus 24.9)

Este ódio por causa do seu nome seria conseqüência de um ensino da Torah a partir da halachá (interpretação) de Yeshua. Ao contrário do que alguns afirmam o ensino de Yeshua não é uma abolição dos preceitos perpétuos da Torah, mas um aprofundamento espiritual de seus princípios. Sobre isso temos alguns registros interessantes:

"Yeshua de Nazaré não só observou a lei de Moisés mas também os
estatutos dos rabinos. Se qualquer de suas palavras os atos parecem à
primeira vista contradizê-los, esta impressão rapidamente se apaga.
Se examinamos cuidadosamente sua vida, encontramos tudo a respeito
dela em completa concordância não apenas com as Escrituras
mas também com a tradição."
(Moses Mendelssohn (1729-1786), um dos mais importantes filósofos judeus e teóricos do Iluminismo alemão. Sendo considerado como um dos três grandes Moises da história israelita, os outros seria Moshe Rabeino e o outro Maimônides, o Rambam – Rabi Moshe ben Maimon)

Rabbi Isaac Lichtenstein (1824-1908) também escreveu:

"De cada linha no Novo Testamento, a partir de cada palavra, o espírito judaico fluía luz, vida, força, resistência, fé, esperança, amor, caridade, sem limites e indestrutível fé em Deus.”

Bil’lam e Avraham. Existe alguma relação?

No passuk (Versículo) seis, temos uma afirmação curiosa:

“... Naquele tempo Balaque, filho de Zipor, era rei dos moabitas.
Este enviou mensageiros a Balaão, filho de Beor, a Petor, que está junto ao rio, na terra dos filhos do seu povo, a chamá-lo, dizendo: Eis que um povo saiu do Egito; eis que cobre a face da terra, e está parado defronte de mim.
Vem, pois, agora, rogo-te, amaldiçoa-me este povo, pois mais poderoso é do que eu; talvez o poderei ferir e lançar fora da terra; porque eu sei que, a quem tu abençoares será abençoado, e a quem tu amaldiçoares será amaldiçoado.”
(Bamidbar/Números 22.4-6)

Quando Balak diz que aquele que Bil’am abençoar será abençoado e quando amaldiçoar será amaldiçoado, não há como não lembra das palavras do Eterno a Avraham avino (Abraão nosso pai):

“Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.
E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.
E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.”
(Bereshit/Gênesis 12.1-3)

Bil’am (Balaão) era originário de Petor, cujos termos eram próximos ao Rio Eufrates em Aram. A terra de Aram têm esse nome por causa de seu patriarca que era filho de Shem ben Noach (Sem filho de Noé), que foi tio avô de Éver (Heber). Ever gerou a Péleg, que gerou a Reú, que gerou a serúg, que gerou a Nachór, que gerou a Térach... Pai de Avraham. Provavelmente, por ser um semita (descendente de Shem/Sem) e em decorrência de Shem ser o primogênito de Noach (Noé), pairava sobre esta linhagem o “status” de abençoador por causa das palavras dirigidas a Shem:

“E disse: Bendito seja YHWH, Elohim de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.
Alargue Elohim a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.”
Bereshit/Gênesis 9.26-27

Podemos notar que o Eterno é anunciado como “O Elohim de Shem” e que Yafet (Jafé) habitaria nas terras de Shem, portanto, Yafet estava sob Shem “hierarquicamente” falando. Não é absurdo então, supor que Bil’am, de certa forma, aproveitou a “fama”.

O Nome revelando o caráter.

Bil’am pode ser a junção de duas palavras: בלע (bala) “confundir” e עמ (am) “povo”, que resultaria em “confundir o povo”, ou בלע (bela) “engolir, devorar” e עמ (am) “povo” resultando em “Engolir, devorar o povo”. De fato, este personagem está envolto em mistérios, pois ao mesmo tempo em que ele é descrito como um profeta, que tinha acesso ao Eterno e temente ao Todo Poderoso, no decorrer da história percebemos que as coisas não são bem assim... Inclusive, alguns estudiosos têm sugerido que Bil’am foi traduzido por “Nikolaos” (conquistador do povo) como se vê em Guilyana/Apocalipse 2.6, 14 e 15:
“Tens, porém, isto: que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.”

“Mas algumas poucas coisas tenho contra ti, porque tens lá os que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel, para que comessem dos sacrifícios da idolatria, e se prostituíssem.
Assim tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas, o que eu odeio.”

Considerando estas coisas, poderíamos dizer que muitos reivindicam as prerrogativas de serem filhos de Avraham, mas não se submetem ao pacto pertinente a este “status”, e assim como Bil’am,  estes “profetas” têm confundido a muitos no que diz respeito ao serviço ao Eterno. Porém, está escrito que:

“Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa.” (Tehilim/Salmos 25.3)

“Por isso diz o Soberano Senhor: "Eis que ponho em Sião uma pedra, uma pedra já experimentada, uma preciosa pedra angular para alicerce seguro; aquele que confia, jamais será abalado.” (Yeshayahu/Isaías 28.16)

Uma contradição?

Os passukim (versículos) vinte ao vinte e dois apresenta algo curioso, aparentemente temos uma contradição, pois segundo o texto, a palavra de elohim foi dirigida a Bil’am para que ele acompanhasse os homens de Moav, SE ESTES O CHAMASSEM, no entanto, pela manhã, quando Bil’am albarda sua jumenta e acompanha a comitiva, a ira do Eterno se acende contra ele! Estranho... Não é mesmo? Como O Eterno daria uma ordem e ao “cumpri-la” o profeta é repreendido?
As prováveis, a explicações seriam:

1)      Que para acompanhá-los, ele deveria primeiro ser chamado pelos mensageiros de Balak, mas o texto sugere que ele foi por iniciativa própria, sem aguardar o referido chamado.
2)      Ele já havia sido advertido para não ir, pois o povo era é bendito, mas mesmo assim aceitou a insistência do contratante. (22.12)
3)      Demonstrou falta de caráter, pois anteriormente havia dito que não desobedeceria a palavra de Elohim por nenhuma prata ou ouro.

Considerações finais.

A riqueza de temas presentes neste capítulo é um convite à exploração de livros, comentários e outras obras que possam oferecer subsídios para pesquisas sobre os porquês de narrativas como a do diálogo de Bil’am com sua jumenta, que para os teóricos das quatro fontes, é uma das provas de suas teses. Contudo, no campo da prática, a resposta é imediata: “Quando Israel está comprometido com sua vocação, os reinos deste mundo se abalam e conspiram contra os escolhidos de YHWH”.


Shabat Shalom!!! 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sedrá para o Shabat de 15/06/13 (Bamidbar 21)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

M ais um rico trecho do sefer bamidbar a ser estudado que, apesar da distância tanto temporal quanto espacial, está repleta de princípios morais e éticos a serem vivenciados ainda hoje em pleno Século XXI. Neste perek (capítulo) temos: A luta contra o cananeu rei de Arad; a murmuração do povo e o ataque das “nachashim haserafim” (serpentes abrasadoras); a confecção da serpente de bronze e sua exposição no alto de uma haste e as batalhas contra os emoreus e Og, rei de Bashan.

Resistindo a ganância.

A primeira lição que aprendemos nesta sedrá está logo no início do capítulo quando vemos Israel lutando contra o cananeu rei de Arad. Assim como o povo necessitou passar pelas terras de Edom, agora precisaria atravessar os termos de Arad, o que não foi possível sem que houvesse uma batalha. E aqui que aprendemos a primeira lição:
Por que O Eterno permitiu que Israel lutasse contra o cananeu e não permitiu que lutasse contra Edom? Alguns comentaristas afirmam que isso se deu por causa dos limites estabelecidos pelo próprio YHWH para as nações:

 “Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando dividia os filhos de Adão uns dos outros, estabeleceu os termos dos povos, conforme o número dos filhos de Israel.” (D’varim/Deuteronômio 32.8)

Embora esta explicação seja bem plausível e, portanto, satisfatória, existe outra forma de olhar para esta questão e é nisso que nos detemos para extrair a lição sugerida, pois quando vemos que Israel conquista Arad e posteriormente o emoreu (cujo encontro e diálogo foram muito semelhantes ao que havia ocorrido com Edom) e também a Bashan, aprendemos que nem tudo que está em nosso caminho deve ser apropriado! Infelizmente, muitos dão ouvidos a discursos triunfalistas e desenvolvem uma ganância desmedida entendendo que conquistar tudo o que está diante de si é sinônimo de vida abençoada. Lembremos do último dos dez ditos:

“Não cobiçarás a mulher do teu próximo; e não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.” (D’varim/Deuteronômio 5.21)

As serpentes abrasadoras

Outro episódio importante neste capítulo é o ataque das serpentes abrasadoras ao povo, salta-nos aos olhos, o elemento causador deste ataque, a impaciência do povo. O texto diz claramente que “a alma do povo” impacientou-se e não simplesmente o povo:

“E partiram do monte Hor, pelo caminho do yam suf, para rodear a terra de Edom, e impacientou-se a alma do povo no caminho.” (Bamidbar /Números 21.4)


 É Interessante dizer que o termo aqui utilizado para alma é “Nefesh” que para muitos é o estágio, digamos, “animalesco” da alma, diferente de “Ruach” (espírito) e neshamah (alma divina e/ou estágio mais elevado), ou seja, os instintos mais primitivos do homem (sobrevivência física) norteando as palavras, pensamentos e ações. Quando isso ocorre, as coisas certamente não terminarão bem como de fato ocorreu com aqueles que não resistiram ao “yetser hará” (impulso mal).
O que é surpreendente neste episódio, está no valor numérico das palavras נפש העם
“nefesh haam” (alma do povo) que é 545, o mesmo valor da palavra “methaleah” (dentes incisivos, mordedores)! Lembremos que por causa de “suas almas” o povo foi MORDIDO pelas serpentes abrasadoras... Mais uma constatação do que Sh’lomo (Salomão) escreveu:

“A morte e a vida estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto.” (Mishlei/Provérbios 18.21)

Por ter “mordido” ao Eterno e a Moshe, o povo recebeu em si o mesmo mal.

Um dado histórico interessante reside nos achados arqueológicos em Timna. Diversas pequenas serpentes de cobre, relacionando esta história com as minas de Arabá, que fica justamente entre Cadesh (local da morte Miriam) e Ácaba (yam suf).

Olhando para a serpente de “El”.

Outro aspecto curioso deste capítulo foi o meio utilizado para curar as vítimas das serpentes abrasadoras, está escrito que Moshe fez uma serpente de cobre e a pôs sobre uma haste para que todo aquele que fosse mordido, ao olhar para a réplica de metal sobreviveria. O texto original descreve esta réplica como “El nachash hanechoshet” e não simplesmente “nachash hanechoshet”. O termo “El” geralmente é utilizado para indicar seres sobrenaturais e o uso deste está indicando que havia uma diferença, pois enquanto as “nachash serafim” vieram por causa da maldade dos homens a “El Nachash HaNechoshet” veio pela misericórdia do Eterno.
Olhar para a serpente, não é a única vez em que olhar para algo resultaria em salvação e/ou livramento para o povo, vejamos o que disse Yeshayahu ha navi (Isaías o profeta):

“Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou El, e não há outro.”
(Yeshayahu/Isaías 45.22)

Isso fica mais interessante porque ao invés do tetragrama יהוה, ou os termos comumente utilizados para se referir ao Eterno como Adonay, Elohim, Elyon e etc, têm justamente “El”! O mesmo utilizado para se referir a serpente de bronze como podemos contatar:

 פנו אלי והושעו כל אפסי ארץ  כי אני אל ואין עוד

Outro aspecto curioso surge quando aplicamos a guemátria (sistema de cálculo das letras hebraicas) na palavra נחש “nachash” (serpente), que é de 358 exatamente o mesmo valor da palavra משיח “mashiach” (ungido/messias)! Extremamente curioso ainda é o fato de que, no futuro, a serpente de “El” estava sendo objeto de idolatria como podemos verificar:

“E sucedeu que, no terceiro ano de Oséias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá.
Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar, e vinte e nove anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Abi, filha de Zacarias.
E fez o que era reto aos olhos do SENHOR, conforme tudo o que fizera Davi, seu pai.
Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã.” (Melachim beit/2 Reis 18.1-4)

O fato da serpente de “El” ter sido um instrumento de salvação, cura e livramento não fazia dela um objeto de adoração, e SE este princípio é aplicável ao equivalente “guemátrico” (Mashiach), isto significa que adoração ao Mashiach deve ser repensada... Reverencia, respeito, honra são manifestações aceitáveis, mas adoração...? Até porque nas instruções sobre os ungidos em D’varim (Deuteronômio) 17.14-20 (reis); 18.1-8 (sacerdotes e levitas) e 18.15-22 (profetas), não há nada que indique o menor sinal de uma “adoração”, muito pelo contrário! Há uma séria advertência nos versos 9 ao 14 para que Israel não fosse como as outras nações e considerando que algumas poucas nações mesopotâmicas e também o Egito, consideravam seus reis como divindades, fica a forte impressão de tal coisa não deveria ser repetida pelos hebreus. Contudo, qualquer conclusão deve ser muito bem examinada antes de ser exposta. “Não devemos jogar fora o bebê junto com a água suja...”

Um livro perdido?

No passuk (versículo) 14 temos uma informação intrigante:

“Por isso se diz no livro das guerras do SENHOR: O que fiz no Mar Vermelho e nos ribeiros de Arnom, e à corrente dos ribeiros, que descendo para a situação de Ar, se encosta aos termos de Moabe.” (Bamidbar/Números 21.14-15)

Seria o livro das guerras de YHWH um livro perdido? Quais os milagres feitos nos rios de Arnon e nas correntes dos rios no território de Ar? Segundo Rashi (Rabi Shlomo Yitschaki, 22 de fevereiro de 1040 – 13 de julho de 1105), um dos maiores comentaristas da Torah, o ocorrido foi o seguinte:

 O que aconteceu no Arnon foi que o povo de Sichon se escondeu nas cavernas que havia nas duas ladeiras dos montes, entre os quais se achava o estreito vale de Arnon. Os israelitas deviam passar por lá e os amorreus iam massacrá-los. Porém, quando os israelitas chegaram ao cume do monte para descer o vale, os dois montes se juntaram e os inimigos de Israel que estavam nas ladeiras, foram esmagados sem que os israelitas percebessem. Entretanto, depois que os montes se juntaram e os israelitas passaram, os montes se juntaram e os israelitas passaram, os montes voltaram a sua antiga posição e o rio do vale arrastou o sangue e os membros dos corpos dos inimigos esmagados. Foi então que os israelitas compreenderam o grande milagre e cantaram um cântico ao famoso poço de água (que segundo o Midrash, acompanhou-os durante os quarenta anos que estiveram no deserto), pois foi por meio deste os israelitas tomaram conhecimento do milagre ocorrido. (Fonte: “Torá. A lei de Moisés” Ed. Sefer)

Considerações finais.

Diante de todas as informações aqui citadas, nos resta estudarmos com diligência e imparcialidade para que possamos conhecer as maravilhas da Lei do Eterno e desfrutarmos da paz abundante como disse o salmista:

“Muita paz têm os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço.”
 (Tehilim/Salmos 119.165)


Shabat Shalom !!!

sábado, 8 de junho de 2013

Sedrá para o Shabat de 07/06/13 (Bamidbar 20)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Este capítulo trás importantes acontecimentos da história hebréia, nele está relatada as mortes de Miriam e Aharon. Também é mencionada neste capítulo a murmuração do povo contra Moshe por causa da falta d’água; a sentença do Eterno a Moshe e Aharon afirmando que ambos não entrarão na terra prometida e a negação de passagem dos hebreus pelas terras de Edom.

Uma associação interessante.

Alguns comentaristas associam a falta d’água e a sede do povo com a morte Miriam, isso pode estar relacionado com o fato da Torah afirmar em shemot (Êxodo) 15.20, que ela, Miriam, fosse uma “ha neviah” (Uma profetiza).
Um profeta tem a responsabilidade de trazer a palavra de YHWH ao povo, ou seja, uma espécie de representante do Altíssimo perante a comunidade enquanto o Cohen (sacerdote) representava o povo perante o Eterno.
No Tanach, temos um trecho muito interessante relacionando a falta de palavra de YHWH com a sede dos homens, vejamos:

“Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR.” (Amós 8:11)

É importante dizer que, quando as escrituras afirmam “Palavra do Senhor” ela está se referindo a Torah. Esta falta de “Palavra do Senhor” tem levado muitos a saciarem sua sede com os mais variados recursos, no entanto, todos estes artifícios não passam de paliativos que não produzem satisfação interior.  Entretenimento, polêmicas e etc. Têm sido a tônica daqueles que há muita já perderam a “palavra” e pensam que por meio destas coisas encontrarão o sentido da vida. O resultado? O texto nos diz: Murmuração! Sim... Pois como disse Sh’lomo:

“Não havendo profecia, o povo perece; porém o que guarda a lei, esse é bem-aventurado.” (Mishlei/Provérbios 29.18)

Miriam tem lugar de destaque na história de nosso povo, ela pode ser vista como um dos pilares da redenção de nosso povo da terra do Egito como podemos inferir a partir de Mikhah/Miquéias 6.4:

“Pois te fiz subir da terra do Egito, e da casa da servidão te remi; e enviei adiante de ti a Moisés, Arão e Miriam.”

 Não é por força!

Outra cena marcante deste episódio é a atitude de Moshe em relação ao comando do Eterno. Foi dito a Moshe:

E o SENHOR falou a Moisés dizendo:
“Toma a vara, e ajunta a congregação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha, perante os seus olhos, e dará a sua água; assim lhes tirarás água da rocha, e darás a beber a congregação e aos seus animais.” (Bamidbar/Números 20.7-8)

A palavra do Eterno a Moshe foi clara, ele deveria apenas falar a rocha, no entanto, ele bateu duas vezes na mesma... Fazendo algo que O Eterno não ordenou, desviando, de certa forma, o foco da palavra de Elohim para sua atitude. Isto trás uma lição para todos os que desempenham o papel de liderança entre o povo de YHWH: É a palavra do Eterno que deve nos nortear e não nosso estado emocional!
Outra lição pode ser aprendida a partir de uma analogia, pois por muitas vezes a dureza de nosso coração é comparada a uma pedra e, algumas vezes os profetas foram levantadas para nos revelar isso, vejamos um exemplo:

Então veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo:
Filho do homem, teus irmãos, sim, teus irmãos, os homens de teu parentesco, e toda a casa de Israel, todos eles são aqueles a quem os habitantes de Jerusalém disseram: Apartai-vos para longe do SENHOR; esta terra nos foi dada em possessão.
Portanto, dize: Assim diz o Senhor YHWH: Ainda que os lancei para longe entre os gentios, e ainda que os espalhei pelas terras, todavia lhes serei como um pequeno santuário, nas terras para onde forem.
Portanto, dize: Assim diz o Senhor YHWH: Hei de ajuntar-vos do meio dos povos, e vos recolherei das terras para onde fostes lançados, e vos darei a terra de Israel.
E virão ali, e tirarão dela todas as suas coisas detestáveis e todas as suas abominações.
E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne;
Para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os cumpram; e eles me serão por povo, e eu lhes serei por Elohim. (Yechezkel/Ezequiel 11.14-20)

Em outros lugares, vemos que os próprios homens são comparados a pedras, como na igueret Kefá alef (1ª epístola de Pedro) 2.5:

Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a YHWH por Yeshua HaMashiach.”

O que estamos querendo dizer, é que ninguém deve ser convencido à força, por meio de agressões ou violência. Esta é uma lição que precisa ser aprendida! Quantos estão tentando convencer outros de alguma coisa, mas o fazem de forma equivocada... Agredindo, zombando, ridicularizando as convicções alheias afastando, desta forma, àqueles que gostariam da trazê-los para perto.
Nossa parte no processo de teshuvah dos dispersos de Israel é a de anunciar a palavra do Eterno por meio de nossa voz e ação, não “arrastá-los” a força.

O legado de Aharon X O legado do povo.

O Perek (Capítulo) vinte termina com o relato da morte de Aharon, onde ele é despido por seu irmão Moshe, e seu filho El’azar assume o sumo sacerdócio. Acredito que a partida de Aharon foi em absoluta Shalom, pois certamente viu seu filho “vestindo” a função que durante tanto tempo desempenhara, a continuidade de seu ofício estava sendo garantida e a certeza de ter deixado um legado honroso a seu filho deve ter lhe proporcionado um momento indizível de felicidade, pois como se diz:

“Não tenho maior gozo do que este o de ouvir que os meus filhos andam na verdade.”
(Yochanan gimel/3 João 1.4)

Isto contrasta e muito, com o que vimos no início desta sedrá, já que vemos o povo “vestindo” a função de seus pais... Isto porque entendemos que os murmuradores de então eram filhos daquela geração que estava se findando, haja vistas para a morte de Miriam e Aharon, os quarenta anos de peregrinação estavam terminando e tudo que aquelas pessoas deixaram foi um coração amargurado, amargura esta herdada e assumida pela geração de então.

Que possamos refletir nisso, para não deixarmos aos nossos filhos esta herança nefasta, mas a esperança de nossa geulá (redenção) e uma emunah (fidelidade) inabalável ao nosso Redentor. 


Shabat Shalom!!!