sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sedrá para o Shabat de 17/08/13 (Bamidbar 30)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Os comentários desta semana abordarão as instruções sobre os “nedarim” (votos). Alguns aspectos destes comentários certamente irão de encontro a certas tendências da sociedade contemporânea, o que a meu ver demonstra o quanto os princípios estabelecidos pela Torah, quando observados, beneficiam o ser humano. Consequentemente, a quebra destes princípios causa vários desequilíbrios nos mais diversos seguimentos da vida, impedindo-nos de desfrutarmos do shalom.

Quem fala demais...

A palavra “neder” (voto) tem em sua raiz a conotação de consagrar (dedicar ao serviço) verbalmente ao Eterno, em outras palavras, seria uma promessa de realizar algo.
As mitzvot (mandamentos) sobre os votos demonstram que nossa relação com Eterno, deve ser permeada por racionalidade e consciência de com quem, quando e onde estamos lidando! De fato, as palavras deste “perek” (capítulo) da Torah reverberaram, ao longo dos séculos, no coração do povo israelita como podemos constatar no Tanach e em outros documentos semitas:

Pagarei os meus votos ao Senhor (nedarai L’YHWH), agora, na presença de todo o seu povo. (Tehilim/Salmos 116.14)

Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Elohim; porque chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fazem mal.
Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Elohim; porque Elohim está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras.
Porque, da muita ocupação vêm os sonhos, e a voz do tolo da multidão das palavras.
Quando a Elohim fizeres algum voto (neder), não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos; o que votares, paga-o.
Melhor é que não votes do que votares e não cumprires.
Não consintas que a tua boca faça pecar a tua carne, nem digas diante do anjo que foi erro; por que razão se iraria Elohim contra a tua voz, e destruiria a obra das tuas mãos?
Porque, como na multidão dos sonhos há vaidades, assim também nas muitas palavras; mas tu teme a Elohim. 
(Kohelet/Eclesiastes 5.1-7)

Ainda no primeiro século, podemos ver este princípio pulsando com veemência nos ensinamentos de Rabi Yeshua:

 Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor.
Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Elohim;
Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei;
Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto.
Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna. (Matitiyahu/Mateus 5.33-37)

Omissão masculina ou rebeldia feminina?

Do passuk (versículo) quatro até o final deste perek (capítulo), temos as instruções referentes aos votos feitos por mulheres. Nota-se então uma atenção especial dispensada a este detalhe, demonstrando claramente a autoridade que o homem possuía sobre estas, isto é obvio, pois se tratava de uma sociedade patriarcal. Contudo, ousamos dizer que esta autoridade não estaria limitada a questão sociológica. Estamos supondo que haveria uma razão para o homem ter este poder sobre a mulher, que só poderia, em tese, ser compreendida alguns milênios depois. É claro que tais palavras podem provocar nas mulheres contemporâneas e, quem sabe, alguns homens, repúdio, indignação e coisas do gênero considerando nossas palavras retrógradas e preconceituosas. Contudo, gostaríamos de basear nossa opinião em dados atuais, que demonstram um número cada vez maior de mulheres sofrendo doenças que anteriormente eram consideradas quase como uma “exclusividade” dos homens... Estamos nos referindo ao índice de mulheres enfartando mundo afora como disse o médico cardiologista Dr. Sérgio Augusto Latuf:

“Nos últimos tempos, a incidência de infarto do miocárdio nas mulheres aumentou assustadoramente. No Brasil, mulheres com mais de 40 anos, apresentam as mais altas taxas de doenças do coração da América Latina, superando o índice de mortalidade de tumores de útero e mama juntos. As doenças cardiovasculares são responsáveis por um terço de todas as mortes de mulheres no mundo. São cerca de 8,5 milhões de mortes por ano.
As doenças como infarto e acidente vascular cerebral (derrame), sempre foram mais comuns nos homens até pouco tempo atrás. O infarto afeta cada vez mais mulheres e cada vez mais cedo.
Existem diversas justificativas que podem explicar os motivos pelos quais ocorreram essas mudanças. A mudança do comportamento e estilo de vida das mulheres alterou significativamente a qualidade de vida nas mulheres. O aumento da responsabilidade também é um dos principais motivos. Cerca de 45% das mulheres são chefes de família no Brasil, muitas delas ocupam cargos de liderança no trabalho, antes restritos aos homens”.

A mudança no estilo de vida das mulheres é considerada uma das causas do aumento deste índice. Esta mudança vem ocorrendo não apenas por causa do aumento populacional feminino, mas está atrelado aos novos conceitos que a sociedade contemporânea tem elegido conforme as seguintes informações:

 “O mundo vem passando por grandes mudanças nas últimas décadas. E não são apenas climáticas. São, também, de gênero. Os homens estão perdendo a hegemonia na escala econômica mundial. Desde a revolução sexual dos anos 60 do século passado, a crescente independência feminina chegou a ponto de, naturalmente, transformar as mulheres em motor do crescimento de um país.
Elas já são 44% da população economicamente ativa do Brasil, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Em uma década, 10,7 milhões de brasileiras ingressaram no mercado de trabalho. Seu poder crescente terá um impacto cada vez maior no desenvolvimento do País. Um estudo realizado em 2006 pelo Fórum Econômico Mundial concluiu que, quanto maior é a participação das mulheres na vida econômica de um país, mais desenvolvido ele é. Ou seja, lugar de mulher é na economia.” (FONTE: http://www.universitario.com.br/noticias/n.php?i=6084)

Toda mudança têm seu início e segundo Renato Cancian, o do comportamento das mulheres pode ser atribuído à Revolução Francesa:

“É possível encontrar na historiografia dos séculos 15 e 18 o aparecimento de temas dedicados à denúncia da condição de opressão das mulheres, tendo como principais fatores a superioridade e a dominação imposta pelos homens.
Porém, ainda não se pode atribuir aos mais variados escritos que surgiram nesse período o rótulo ou o conceito de "feminista". Por outro lado, os estudiosos do tema creditam ao contexto social e político da Revolução Francesa (1789) - e, portanto, do Iluminismo - o surgimento do feminismo moderno.”
(*Renato Cancian é cientista social, mestre em sociologia política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política - 1972-1985".)

Não iremos estender neste comentário, todo o desenvolvimento da história do movimento feminista, pois faltará espaço e tempo hábil para relatarmos as nuance tanto de seu pensamento quanto da sua prática.

Em resumo, pode-se notar que as mulheres passaram a ficar sobrecarregadas, pois além de trabalharem fora precisam dar conta das tarefas domésticas! Suas estruturas começaram a se abalar... Na verdade, em vias de regra, por serem mais sensíveis, estão mais propensas a somatizações. Alguém então poderia sugerir que a solução seria o homem executar as tarefas domésticas, mas isso também tem seus efeitos psicológicos como aponta a seguinte pesquisa:

Joshua Coleman, psicólogo do Council of Contemporary Families (Conselho das Famílas Contemporâneas), comentou o estudo no site da organização americana e sublinhou que: as mulheres dizem sentir mais atração sexual e afeto pelos maridos se estes participarem nas tarefas do lar. No sentido oposto, advertiu que passar demasiado tempo com os filhos pode prejudicar a intimidade do casal e diminuir consideravelmente o número dos momentos românticos.

 Já o periódico American Sociological Review diz:

“Ao analisar dados de 4,5 mil casais americanos heterossexuais, os pesquisadores relataram que aqueles em que a mulher executava tarefas tradicionalmente “femininas” faziam sexo 1,6 mais vezes do que aqueles que dividiam as tarefas de modo igualitário.”

Qual é a relevância do sexo na vida de um casal? Esta é uma pergunta que cada um deve responder a si mesmo, no entanto, é notório que a freqüência deste ato trás conseqüências ao relacionamento, as quais são documentadas há muito tempo... Vejamos:

Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo por algum tempo, para vos aplicardes ao jejum e à oração; e depois ajuntai-vos outra vez, para que Satanás não vos tente pela vossa incontinência. (Curintayah alef/1 Coríntios 7.5)

Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus co-herdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas orações. (Kefah alef/1 Pedro 3.7)

Finalmente, gostaríamos de dizer que os desequilíbrios existentes na sociedade estão relacionados com a inversão de papéis tanto do homem quanto das mulheres. Pois muitos homens passaram a ‘fugir’ da responsabilidade de ser o provedor, obrigando as mulheres a assumir esta função. Em contra partida, também existem aquelas que não admitem, aceitam ou reconhecem os esforços de seus cônjuges para a manutenção do lar.

Vale lembrar que o matrimônio também é um voto, um juramento, um compromisso assumido entre um casal. Portanto, não é nenhum exagero incluí-lo como objeto de análise nesta sedrá (sequência de estudos).

Que possamos ter os devidos cuidados nos nossos relacionamentos com O Eterno e com nossos cônjuges.


Shabat Shalom!!!

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sedrá para o Shabat de 10/08/13 (Bamidbar 29)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.
 Na sequência de comentários do Sefer Bamidbar, hoje estaremos analisando o perek (capítulo) 29. Vale ressaltar que este capítulo é uma continuação das instruções sobre as ofertas para os dias festivos, especificamente os do sétimo mês. Veremos ao longo deste comentário que todas as celebrações desta época apontam para os acontecimentos na plenitude dos tempos.

Um breve esclarecimento.

Certamente você já ouviu que o ano judaico se inicia no sétimo mês, pois para alguns, em Israel existe um início civil e outro religioso para o ano. Porém, a Torah não nos diz nada parecido com isso! Diz sim, que o primeiro mês do ano é o mês que se celebra o Pessach como podemos constatar em Shemot (Êxodo):

E falou o Senhor a Moisés e a Arão na terra do Egito, dizendo:
Este mesmo mês vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano.
Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês tome cada um para si um cordeiro, segundo as casas dos pais, um cordeiro para cada família.
Mas se a família for pequena para um cordeiro, então tome um só com seu vizinho perto de sua casa, conforme o número das almas; cada um conforme ao seu comer, fareis a conta conforme ao cordeiro.
O cordeiro, ou cabrito, será sem mácula, um macho de um ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras.
E o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês, e todo o ajuntamento da congregação de Israel o sacrificará à tarde.
E tomarão do sangue, e pô-lo-ão em ambas as ombreiras, e na verga da porta, nas casas em que o comerem.
E naquela noite comerão a carne assada no fogo, com pães ázimos; com ervas amargosas a comerão. (Shemot/Êxodo 12.1-8)

Se o Pessach ocorre no primeiro mês do ano, nada mais obvio do que concluir que o ano se inicia ao que no calendário gregoriano, corresponde aos meses de Março e Abril, ou seja, no começo da Primavera no hemisfério norte.

Como, quando e onde começou a celebração do ano novo no sétimo mês?

Esta mudança é fruto de um sincretismo com uma celebração babilônica, durante o período em que os judeus estiveram exilados naquele império. Referimos-nos ao festival chamado “akitu” celebrado duas vezes por ano (plantio e colheita da cevada) a cada primeiros e sétimos meses dos anos.

Sétimo mês. Uma “sinopse” da plenitude dos tempos?

Tentaremos demonstrar que cada celebração do sétimo mês trás consigo, um profundo significado que pode estar revelando, a sequência dos eventos para a plenitude dos tempos.
O número sete está envolto em muitos simbolismos: descanso, plenitude, completude, perfeição e etc. Logo, a idéia de que justamente no sétimo mês ter o maior número de celebrações, nos atrai à reflexão e, consequentemente, vislumbramos algumas coisas que tanto na literatura rabínica, quanto nazarena (seguidores de Rabi Yeshua) são corroboradas...
O Sétimo mês inicia-se com uma celebração:

“Semelhantemente, tereis santa convocação no sétimo mês, no primeiro dia do mês; nenhum trabalho servil fareis; será para vós dia de sonido de trombetas.”
(Bamidbar/Números 29.1)
 
Este dia é descrito na Torah como “Yom Teruah” (Dia do brado), mas também é conhecida popularmente como “Festa das Trombetas”, pois é o dia em que, além de se tocar o Shofar (chifre de carneiro) anunciando o novo mês, deve ocorrer santa convocação e nenhuma obra servil deve ser realizada, e possível entender que o brado seria uma reunião para preces públicas, feitas em voz alta, por exemplo. Seria um dia para se fazer um “barulho santo”!
Uma das curiosidades desta festa é que seu propósito não é revelado como as demais, o que leva alguns comentaristas a atribuir certo mistério a esta celebração, devido a uma expressão utilizada em Vayikrá (Levítico) 23.24 – “Zichron Teruah”:

“Fala aos filhos de Israel, dizendo: No mês sétimo, ao primeiro do mês, tereis descanso, memorial com sonido de trombetas, santa convocação.”

A palavra hebraica traduzida para memorial é “Zichron”, por isso este dia também é conhecido como “Zichron Teruah” (Memorial do Brado). Destarte, surgiu a pergunta: “Memorial do que?” A partir desta pergunta muitas teorias são criadas, indicando que este brado aponta para o futuro. No entanto, “Zichron’ também pode ser traduzido como mencionar, inclusive como mencionar o nome do Eterno, como o termo está associado em algumas passagens do Tanach,o que faz com  alguns sugiram que Yom Teruah seja um dia de se bradar o Nome do Eterno em uníssono numa reunião pública.

No décimo dia deste mês, ocorre a mais sagrada celebração israelita, “Yom HaKippurim” (Dia das expiações). Neste dia aflige-se a alma, algo que foi entendido como um dia de jejum, que se inicia no por do sol do nono dia e termina no por do sol do décimo dia (ver Vayikrá/Levítico 23.32).
É interessante o entendimento que a tradição judaica tem deste dia, pois o considera como o dia em que o Tribunal do Eterno é estabelecido para decidir o destino da humanidade.

No décimo quinto dia, inicia-se “Sukot”, a festa das cabanas, também chamada de tabernáculos. Nesta celebração, o povo deve montar sua “suká” (cabana) em memória da habitação de nossos antepassados quando tirados do Egito pelo Eterno. Por sete dias devemos “habitar” nestas cabanas para que nossos filhos saibam a trajetória de nosso povo e não esqueça que somos dependentes do Eterno em um tempo em que o Eterno ‘habitava’ em nosso meio.

Considerando o propósito de cada Festa, temos a seguinte sequência:

  • Toca-se o Shofar.
  • As expiações são realizadas. (segundo a tradição, o Tribunal Celestial é estabelecido)
  • Cinco dias após, as tendas são montadas.
 Comparemos esta sequencia com as palavras de Guilyana (Apocalipse) que embora tenha sofrido muitas corrupções ao longo dos séculos e de estar envolto em muitas polêmicas acerca de seu conteúdo, não deixa de ser um documento que representa o entendimento de alguns judeus do primeiro século. Vejamos os textos:

Para “Yom Teruah”:

E, depois destas coisas ouvi no céu uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia! A salvação, e a glória, e a honra, e o poder pertencem a Adonai Eloheino;
Porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua fornicação, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos.
(Guilyana/Apocalipse 19.1-2)

E vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo, e uma grande cadeia na sua mão.
Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos.
E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois importa que seja solto por um pouco de tempo.
E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Yeshua, e pela palavra de YHWH, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Mashiach durante mil anos.
(Guilyana/Apocalipse 20.1-4)

Para Yom Hakippurim:

E, acabando-se os mil anos, Satanás será solto da sua prisão,
E sairá a enganar as nações que estão sobre os quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, cujo número é como a areia do mar, para as ajuntar em batalha.
E subiram sobre a largura da terra, e cercaram o arraial dos santos e a cidade amada; e de YHWH desceu fogo, do céu, e os devorou.
E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre.
E vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles.
E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de YHWH, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras.
E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras.
 (Guilyana/Apocalipse 20.7-13)
Para Sukot (Tabernáculos):

E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.
E eu, Yochanan, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de YHWH descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido.
E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de YHWH com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo YHWH estará com eles, e será o seu Elohim.
(Guilyana/Apocalipse 21.1-3)

Ou seja, segunda esta perspectiva, os eventos finais seguem a sequência das festas do sétimo mês: Yom Teruah, Yom Hakippurim e Sukot.

E no sétimo dia haverá descanso.

Na literatura rabínica encontramos algumas interpretações muito interessantes que complementa a idéia exposta acima, pois conta o tempo de uma forma que se encaixa com a sugestão acima descrita:

“O mundo deve existir por seis mil anos: dois mil anos de desolação, dois mil de Torah e dois mil dos dias de Mashiach.” (Sanhedrin 97A)

Estas etapas são divididas de modo a considerar cada dia da criação como se fossem mil anos, uma profecia para a longevidade da humanidade, ou seja, estão previstos seis milênios para a terra, o sétimo é o grande descanso, o estabelecimento do Reino de Mashiach ben David. Assim, dividindo os seis milênios teríamos três períodos de dois mil anos cada:

*Dois mil anos até Avraham, o período da desolação.

*Dois mil anos a partir de Avraham, o período da Torah.

*Dois mil anos finais, são chamados de “icveta dimeshicha” (passos do Mashiach)

Se considerarmos esta divisão, associando personagens históricos de cada período, poderíamos chegar a seguinte fórmula:

*De Adam à Avraham, dois mil anos.

*De Avraham à Rabi Yeshua, dois mil anos.

*De Rabi Yeshua até hoje, dois mil anos.

O Próprio Rambam dizia que esses seis mil anos espelham os seis dias da criação. Ele até compara os eventos de cada dia com seu milênio correspondente. A Chassidut também faz esta associação, vejamos como fica:

  • Primeiro dia (Mil anos) = Luz infinita criada representando a bondade do Eterno que alimentava as pessoas.
  • Segundo dia (Dois mil anos) = separação das águas de “cima” das de “baixo” representando o julgamento pelo grande dilúvio,
  • Terceiro dia (Três mil anos) = Começa a aparecer a porção seca e o propósito da criação começa a se revelar, representando o Êxodo do Egito e o surgimento do povo escolhido
  • Quarto dia (Quatro mil anos) = Os luminares são criados, Rabi Yeshua surge no cenário da História trazendo “luz” ao mundo com seus ensinamentos.
  • Quinto dia (Cinco mil anos) = As águas se encheram de criaturas vivas e aves voaram sobre a terra, aludindo ao governo das nações gentias no quinto milênio.
  • Sexto dia (Seis mil anos) = O Eterno termina sua Obra criando o homem, assim, também, no sexto milênio, o homem perfeito se manifestará, que na linguagem de Rambam é o Mashiach ben David, o Filho de HaShem.
  • Sétimo dia (Sete mil anos) = No sétimo dia O Eterno descansou, no sétimo milênio inicia-se o Reino de Mashiach ben David.
Concluindo...

Estaria a Torah revelando os eventos finais da humanidade por meio das festas do sétimo mês? De fato, o sétimo mês iniciava-se com um grande brado e na expectativa de alguns israelitas do primeiro século, a vinda de Mashiach ben David seria anunciada por um grande brado como se vê em outro documento desta época:

Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória.
E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus.
(Matitiyahu/Mateus 24.30-31)

Também na literatura rabínica é dito que a manifestação do Mashiach ben David será precedida por épocas difíceis marcada por degeneração moral, estando de acordo com isso os ensinamentos de rabi Yeshua:

E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.
Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares.
Mas todas estas coisas são o princípio de dores.
Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.
Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarào.
E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos.
E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará.
Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo.
(Matitiyahu/Mateus 24.6-13)

Que O Eterno nos ensine a ler os tempos.


Shabat Shalom!!!

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sedrá para o Shabat de 03/08/13 (Bamidbar 28)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Este capítulo trás as instruções sobre as ofertas cotidianas e, semelhantemente a Vayikrá (Levítico) 23, as ofertas para os dias festivos. Mas ao nos depararmos com a sedrá deste Shabat, nos perguntamos: “Qual a utilidade que as instruções sobre os sacrifícios podem ter para nós que vivemos na galut (exílio), sem cohanim (sacerdotes) e sem o Beit HaMikdash (Templo)?” Mais uma vez, quando atentamos para o “espírito” da Torah ao invés de somente na “letra”, podemos extrair muitas lições para o desenvolvimento de uma vida justa em conformidade com a vontade do Eterno. Isso é o que tentaremos demonstrar ao longo deste singelo comentário.

Entendendo os sacrifícios.

Antes de adentrarmos propriamente nos comentários deste perek (capítulo), vale lembrar que a Torah menciona sobre cinco tipos de sacrifícios, são eles:

*Olah - (Oferta de elevação; totalmente consumida pelo fogo.)

*Minchah - (Oferta de cereais; parcialmente consumida pelo fogo)

*Shelamim - (Oferta de paz; pode ser comida pelo ofertante e sacerdotes, sacrifício de comunhão)

*Chatat - (Oferta pelo pecado; caráter expiatório)

*Ashan - (Oferta pela culpa; caráter expiatório)

Os três primeiros sacrifícios deveriam ser voluntários, por isso é considerado como o tipo preferido pelo Eterno, pois deseja que a relação com Ele seja voluntária. Os dois últimos, chata e ashan, eram obrigatórios. Cada um destes sacrifícios trás à reboque um princípio que permanece em vigor, independente de tempo e espaço e é a partir disso que entendemos a importância deste relato para os dias atuais.

 “Olah”. O desafio da elevação contínua.

Diariamente, pela manhã e a tarde, deveria se apresentar ao Eterno em oferta de elevação um cordeiro (por cada período), que depois de sacrificado seria queimado sobre o altar, com isso, a fumaça proveniente deste ato subiria, ou melhor, era elevada até os céus, simbolizando a elevação do ofertante. Ou seja, por ser uma oferta voluntária, demonstra claramente que quem oferecia este tipo de sacrifício realmente estava buscando uma vida mais elevada, uma maior proximidade com o Eterno, pois a própria palavra “korban” que nos remete a idéia de oferta, significa literalmente, aproximação.
Considerando este princípio, percebemos o quão desafiador é para quem deseja se aproximar do Eterno e elevar sua vida nos dias de hoje, pois que está disposto a dedicar, diariamente, dois períodos de devoção ao Eterno? Sim... Pois o princípio contido nesta mitzvah (mandamento) é permanente! Logo, a aplicabilidade deste conceito é total.
Aqueles que, equivocadamente, dizem que “Jesus” (Yeshua) aboliu estes sacrifícios, deveriam ler com mais atenção o livro que declaram seguir, pois nele está registrado com clareza o seguinte:

“E Pedro e João subiam juntos ao templo à hora da oração, a nona.
E era trazido um homem que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual todos os dias punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam.”
(Ma’assei/Atos 3.1-2)

No momento em que Kefah (Pedro) e Yochanan (João) vão ao Templo, segundo os relatos da Brir Chadashah (chamada pelos cristãos de Novo Testamento, e desrespeitosamente, por Brit HaRá, por alguns judeus) Yeshua já havia morrido e ressuscitado, o que segundo a crença de alguns, teria abolido os sacrifícios, se fosse isso mesmo, o que Kefa e Yochanan iriam fazer no Templo na hora do sacrifício da tarde? Será que eles não sabiam que Yeshua aboliu os sacrifícios? Ou eles sabiam que qualquer que fosse o Mashiach, este não aboliria a Lei, mas a manteria elevando-a ainda mais? Entendemos que a segunda opção é a mais provável.
Outra peculiaridade do sacrifício “Olah” era que este era o único dos sacrifícios que o animal oferecido deveria ser totalmente queimado no altar. Portanto, era uma oferta inteira... Compare isso com o que diz Divrei Hayamim beit/ II Crônicas 25.1-2, 14:

“Era Amazias da idade de vinte e cinco anos, quando começou a reinar, e reinou vinte e nove anos em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Joadã, de Jerusalém.
E fez o que era reto aos olhos do Senhor, porém não com inteireza de coração... E sucedeu que, depois que Amazias veio da matança dos edomitas e trouxe consigo os deuses dos filhos de Seir, tomou-os por seus deuses, e prostrou-se diante deles, e queimou-lhes incenso.”

Quando o nosso coração não é “inteiramente entregue no altar”, o risco dele ser entregue a outra coisa é eminente e as conseqüências geralmente são desastrosas. Não podemos esquecer que:

“Amarás, pois, a YHWH teu Elohim de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças.” (D’varim/Deuteronômio 6.5)

As Festas do Eterno. Dias para irmos além.

Como lemos na Torah, vemos o Eterno instruindo ao povo sobre como e quando as ofertas deveriam ser apresentadas, em relação ao que se lê em Vayikrá/Levítico 23, vemos que em Bamidbar temos incluídas as instruções para o Rosh Chodashim (início dos meses). O que nos chama a atenção é que, nos dias das Festas é recomendado, ALÉM das ofertas diárias, outras ofertas. Considerando isto, notamos que nestes dias as ofertas eram maiores, o ‘movimento no santuário era mais intenso’, por isso a necessidade de se abster de obras servis e, nos shabatot e yom ha kippurim de todas as obras! Pois eram dias de envolvimento total com o “avodat HaShem” (Serviço ao Eterno).
Segundo o que entendemos deste capítulo, é um dia para irmos além, de oferecermos mais Àquele que não nos deixa faltar nada, que nos protege, nos supre e orienta. A Ele seja a Glória para sempre... Amén! Nesta condição, lembramo-nos do salmista:

“Que darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?”
(Tehilim/Salmos 116.12)

Após se perguntar, ele mesmo responde:

“Tomarei o cálice da salvação, e invocarei o nome do Senhor.
Pagarei os meus votos ao Senhor, agora, na presença de todo o seu povo.”
(Tehilim/Salmos 116.13,14)

Ao lermos esta resposta, somos remetidos a outra expressão envolvendo “cálice”, que nos fala de intensidade na devoção, vejamos:

 “E, saindo, foi como costumava, para o Monte das Oliveiras; e também os seus discípulos o seguiram.
E quando chegou àquele lugar, disse-lhes: Orai, para que não entreis em tentação.
E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava,
Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua.
E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia.
E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão.” (Lucas 22.39-44)

Vale lembrar que esta intensidade se deu em um dia festivo, no Pessach, durante a vigília ordenada pelo Eterno para esta ocasião como descreve a Torah:

“Guarda o mês de Abibe, e celebra a páscoa a YHWH teu Elohim; porque no mês de Abibe YHWH teu Elohim te tirou do Egito, de noite.
Então sacrificarás a páscoa a YHWH teu Elohim, das ovelhas e das vacas, no lugar que o Senhor escolher para ali fazer habitar o seu nome.
Nela não comerás levedado; sete dias nela comerás pães ázimos, pão de aflição (porquanto apressadamente saíste da terra do Egito), para que te lembres do dia da tua saída da terra do Egito, todos os dias da tua vida.
Levedado não aparecerá contigo por sete dias em todos os teus termos; também da carne que matares à tarde, no primeiro dia, nada ficará até à manhã.
Não poderás sacrificar a páscoa em nenhuma das tuas portas que te dá YHWH teu Elohim; Senão no lugar que escolher YHWH teu Elohim, para fazer habitar o seu nome, ali sacrificarás a páscoa à tarde, ao pôr do sol, ao tempo determinado da tua saída do Egito. Então a cozerás, e comerás no lugar que escolher o YHWH teu Elohim; depois voltarás pela manhã, e irás às tuas tendas.”
(D’varim/Deuteronômio 16:1-7)

O relato de Lucas mostra, nada mais nada menos, que Yeshua, como um Tsadik (justo) estava cumprindo as determinações da Torah, em que, além das ofertas cotidianas oferecia, com maior intensidade sua devoção, ou seja abdicando de sua vontade para fazer a vontade do Eterno.

Teshuvah (Retorno)? Sim! Incoerência? Não!

Atualmente, vemos muitas pessoas buscando celebrar as “Festas do Senhor”, incluindo em sua agenda anual os dias relativos a estas celebrações. Isso não deixa de ser uma espécie de “despertamento”, é como se O Eterno estivesse chamando a atenção daqueles que são descendentes das tribos perdidas, (mas que ainda não sabem), de volta para casa! Contudo, dentre estes que têm desejado celebrar estas datas, nota-se ainda uma resistência ao Shabat, o que se configura numa grande incoerência! Pois o shabat é a primeira destas Festas! Como Levítico descreve:

“Depois falou o SENHOR a Moisés, dizendo:
Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: As solenidades do Senhor, que convocareis, serão santas convocações; estas são as minhas solenidades:
Seis dias trabalho se fará, mas o sétimo dia será o sábado do descanso, santa convocação; nenhum trabalho fareis; sábado do Senhor é em todas as vossas habitações.” (Vayikrá/Levítico 23.1-3)

Esperamos que, mesmo em dias tão corridos, possamos realmente oferecer uma devoção plena, inteira, diariamente. Mesmo que para isso, como ensinou Rabi Yeshua, neguemos a nós mesmos.


Shabat Shalom!!!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sedrá para o Shabat de 27/07/13 (Bamidbar 27)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Curiosamente, neste shabat de 27/07, estaremos estudando o capítulo 27 do Sefer Bamidbar (Livro de Números). Mais um capítulo com ricas lições a serem aprendidas, pois Israel estava se aproximando de uma mudança na liderança, onde a maturidade e confiança em HaShem seria colocada a prova. Moshe, o homem que intermediou a relação do povo com o Eterno, estaria encerrando sua etapa e novos tempos se aproximavam para toda nação israelita.

Imprevistos acontecem.

Contrariando os mais “apaixonados”, que muitas vezes afirmam que a Torah  trata de todos assuntos, percebemos no texto sagrado uma situação que não estava contemplada na Torah, ou seja, o que fazer quando alguém não deixar herdeiros? Com a perspectiva deste século e sob a influência de uma cultura ocidental capitalista, certamente a situação não será compreendida de maneira adequada, pois alguns aspectos da sociedade sofreram ao longo dos séculos grandes mudanças, de modo que, em vias de regra, temos uma participação feminina no cotidiano, cada vez maior de modo que valor de uma sociedade patriarcal, sociedade agropecuária onde a terra era a base da subsistência, soa de forma estranha aos ouvidos, e o fato das mulheres não serem previstas como herdeiras certamente provocaria discursos feministas muito inflamados.
Entendemos que o relato desta situação, é um convite para refletirmos nas nossas atribuições enquanto seres racionais. Sim, pois ao nos depararmos com situações extraordinárias, devemos fazer uso de nossa inteligência, buscar soluções e respostas que não estão prontas, “embaladas” e aguardando na “prateleira” de um mercado qualquer, que as peguemos e utilizemos.
E dito por alguns comentaristas, em outras palavras, que na criação O Eterno nos deu a “matéria prima” e nós deveríamos fazer “bom uso” destes insumos para o desenvolvimento da vida. Por exemplo, O Eterno criou a madeira para que o homem fizesse os móveis, e assim por diante. Quando estivermos diante de uma situação que a Torah não abordou com clareza, devemos entender que O Eterno nos convida ao crescimento, “Ele quer nos ensinar a pescar” ao invés de nos dar o “peixe”.

A humildade de Moshe.

Ao ser abordado pelas cinco moças naquela situação inusitada, Moshe agiu de forma exemplar. Ele poderia confiar na sua experiência, afinal já estava no “cargo” há quase quarenta anos! No entanto, a Torah relata o seguinte:

“E levou Moshe a causa delas perante O Eterno.” (Bamidbar/Números 27.5)

Por maior que seja nossa experiência, por maior que seja nossa erudição não devemos esquecer que:

“... Para todo o propósito há seu tempo e juízo; porquanto a miséria do homem pesa sobre ele.
Porque não sabe o que há de suceder, e quando há de ser, quem lho dará a entender?
Nenhum homem há que tenha domínio sobre o espírito, para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte...” (Kohelet/Eclesiastes 8.6-8)

Fortalecendo os laços familiares.

Em tempos que a sociedade contemporânea quer redefinir (ou mesmo extinguir)
o conceito original de “família”, vemos na Sedrá de hoje, uma linda instrução que nos convida a resistir todas estas “inovações” que os filhos de belial tentam impor aos homens, nos referimos a transmissão da herança ao parente mais próximo na ausência de um herdeiro direto:

E falarás aos filhos de Israel, dizendo: Quando alguém morrer e não tiver filho, então fareis passar a sua herança à sua filha.
E, se não tiver filha, então a sua herança dareis a seus irmãos.
Porém, se não tiver irmãos, então dareis a sua herança aos irmãos de seu pai.
Se também seu pai não tiver irmãos, então dareis a sua herança a seu parente, àquele que lhe for o mais chegado da sua família, para que a possua; isto aos filhos de Israel será por estatuto de direito, como o Senhor ordenou a Moisés.”
(Bamidbar/Números 27.8-11)

Para não esquecermos a lei da semeadura.

Esta sedrá (sequência) contem um dos momentos mais marcantes da Torah, pois aqui, O Eterno anuncia a Moshe, Seu servo, que este iria ser ‘juntado ao seu povo”, ou seja, ele iria morrer. É interessante notarmos que O Eterno dá uma instrução bem específica a Moshe:

 “Depois disse o Senhor a Moisés: Sobe a este monte de Abarim, e vê a terra que tenho dado aos filhos de Israel.” (Bamidbar/Números 27.12)

Subir ao monte “Abarim” tem um profundo significado, Moshe deveria olhar de lá para a Terra que foi dada aos filhos de Israel, mas que ele, Moshe, não iria adentrar... Isso pode parecer para alguns, um sadismo cruel para com o ancião. No entanto, como vimos na semana passada, a vida de Israel iria continuar e os erros da geração passada não deveria ser repetidos, e uma das últimas lições estava sendo aplicada pelo Eterno por intermédio de Moshe, pois  nome do monte que Moshe deveria ir – Abarim, pode ser entendido como plural de “abar”, que significa exatamente irritar, enfurecer-se, ficar encolerizado. Podendo ainda estar relacionado com “ebra” (ser arrogante; enfurecer-se), por esta razão, ao especificar um monte que se chama “enfurecer-se; ser arrogante e etc.”, era como se O Eterno estivesse lembrando o porquê de Moshe não estar entrando na Terra prometida e ensinando as gerações seguintes que a arrogância humana impede o desfrute das promessas de HaShem ao Seu povo. O Nome do monte era o nome da transgressão cometida, O que foi semeado em Kadesh no deserto de Tsin (ver Bamidbar/Números 20.7-13), estava prestes a ser colhido.

O Amor de Moshe pelos seus irmãos.

Outro exemplo a ser seguido, é o pedido feito ao Eterno por Moshe pelo povo:

“Então falou Moisés ao Senhor, dizendo:
O Senhor, Elohei HaRuchot (D’us dos espíritos) de toda a carne, ponha um homem sobre esta congregação,
Que saia diante deles, e que entre diante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar; para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor.” (Bamidbar/Números 27.15-17)

Este é o espírito da Torah! O amor ao próximo e a preocupação com seu destino, a busca pela ovelha perdida, o repúdio a “síndrome de Cain” (Que não se julgava responsável por seu irmão). Ao interceder por Israel e seu futuro, Moshe demonstra o perfil de um mashiach. Séculos depois Rabi Yeshua disse que seus talmidim(discípulo) não ficariam “órfãos”, e seus talmidim (discípulos) ensinaram também que:

 “... Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis no Filho e no Pai.” (Yochanan alef/1 João 2.24)

Isto significa que a fórmula para não ficarmos como ovelhas sem Pastor é permanecermos nos mandamentos de Elohim, assim Ele estaria conosco e certamente poderemos dizer como David:

“Adonai Roí lo Echsar...”
(O Senhor é o meu Pastor...)


Shabat Shalom!!!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Sedrá para o Shabat de 20/07/13 (Bamidbar 26)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Neste shabat, estaremos comentando o perek (capítulo) 26 do Sefer Bamidbar (Livro de Números), mas ao nos depararmos com seu relato somos desafiados a buscar um sentido para ele, pois aparentemente não há nada de prático a se extrair deste conteúdo, pois temos a impressão de estarmos lendo uma “lista telefêonica”! No entanto, somos surpreendidos ao ver emergir de suas palavras, profundas lições e curiosidades que nos remetem a sérias reflexões acerca da vida israelita em todos (e para) os tempos.

Depois da morte, a Vida!

“E foi depois da mortandade...”
 Muito interessante é a forma como este capítulo se inicia, pois O Eterno ordena o censo de todos os filhos de Israel, ou seja, contar os que estavam vivos, criando uma espécie de contraponto que certamente pretende nos despertar para um entendimento mais elevado da situação. Qual, (ou quais) entendimentos, seriam esses? Primeiramente, percebemos claramente que a vida continuou, pois mesmo após a morte de toda uma geração, Israel ainda vivia e seguia sua jornada. Com isso, a Torah está dizendo: “A Vida continua!” Sim... Em que pese enfrentarmos perseguições, injúrias e todos os problemas desta vida, temos uma vocação a seguir, um caminho a percorrer, a Torah é o livro da esperança, da oportunidade de um recomeço... Ao levantar este censo, O Eterno estaria trazendo a memória dos israelitas, outro censo que foi feito algumas décadas antes, como a Torah descreve:

“Falou mais o SENHOR a Moisés no deserto de Sinai, na tenda da congregação, no primeiro dia do segundo mês, no segundo ano da sua saída da terra do Egito, dizendo: Tomai a soma de toda a congregação dos filhos de Israel, segundo as suas famílias, segundo a casa de seus pais, conforme o número dos nomes de todo o homem, cabeça por cabeça; Da idade de vinte anos para cima, todos os que em Israel podem sair à guerra, a estes contareis segundo os seus exércitos, tu e Arão.”
(Bamidbar/Números 1:1-3)

Era como se Eterno estivesse dizendo àquela geração: “Agora é com vocês!” Pois seiscentos e três mil quinhentos e cinquenta homens de uma geração, com exceção de dois (Yehoshua/Josué e Kaleb/Calebe), morreram sem adentrar a terra prometida. Diante disso, somos chamados a uma grande responsabilidade: Que tipo de legado deixaremos à geração seguinte?

Ninguém é insubstituível.

Seiscentos e três mil quinhentos e quarenta e oito homens pereceram, mas seiscentos e um mil setecentos e trinta estavam vivos para dar continuidade à história de nosso povo. O Eterno está nos ensinando que sempre haverá alguém de sua parte levando adiante sua mensagem, mesmo que alguém chamado por Ele venha falhar, desistir ou mesmo negar este chamado, Ele criará meios para que sua mensagem seja divulgada e sua vontade seja feita, pois com Yiov (Jó) pode constatar:
“Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido.”
(Yiov/Jó 42.2)

Entendemos que isto nos coloca em nosso devido lugar, pois o protagonista da história é O Eterno! Como bem disse Sha’ul (Paulo):

“Porque dEle e por Ele, e para Ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. Amém.” (Ruhomayah/Romanos 11.36)

Em outra carta, Sha’ul (Paulo) expressa isto de outra forma, ratificando ainda mais que nossa participação é ínfima diante da grandeza desta obra:

“Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?
Eu plantei, Apolo regou; mas O Eterno deu o crescimento.
Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas YHWH, que dá o crescimento.” (Curintayah alef/1 Coríntios 3.5-7)

Na história israelita temos vários exemplos de que ninguém foi insubstituível: Eli foi substituído por Sh’muel (Samuel); Sha’ul por David; Elyiahu (Elias) por Elisha (Eliseu)...Isso deveria ser entendido por aqueles que exercem algum tipo de liderança que a história não depende deles, mas do Eterno. Muitos foram chamados a desempenhar algum papel no serviço ao Eterno, mas em algum momento se envaideceram, achando-se auto-suficientes e acabaram como Shimshon que, sem perceber foi abandonado pela Ruach Elohim (Shoftim /Juízes 16.20) e consequentemente ficou cego.

Se não honramos nossos pais...

A contagem de cada tribo dos filhos de Israel no censo deste capítulo 26 acaba comprovando algo que a Torah ensina de maneira bem enfática, Pai e mãe devem ser honrados, pois do contrário não somos abençoados.
Na relação, percebemos que as tribos com menos homens (filhos) são Shimon e Levi, respectivamente com 22.200 e 23.000 indivíduos contados. Estes dois foram justamente os filhos de Ya’akov (Israel), que trouxeram um grande transtorno ao nosso patriarca:

“E aconteceu que, ao terceiro dia, quando estavam com a mais violenta dor, os dois filhos de Jacó, Simeão e Levi, irmãos de Diná, tomaram cada um a sua espada, e entraram afoitamente na cidade, e mataram todos os homens.
Mataram também ao fio da espada a Hamor, e a seu filho Siquém; e tomaram a Diná da casa de Siquém, e saíram.” (Bereshit/Gênesis 34.25-26)

“Então disse Jacó a Simeão e a Levi: Tendes-me turbado, fazendo-me cheirar mal entre os moradores desta terra, entre os cananeus e perizeus; tendo eu pouco povo em número, eles ajuntar-se-ão, e serei destruído, eu e minha casa.” (Bereshit/Gênesis 34.30)

O Tanach nos deixa entender que a quantidade de filhos é sinal de benção, como podemos inferir do Tehilim (Salmos) 127:

“Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.
Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade.
Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava...” (Tehilim/Salmos 127.3-5)

E ainda:

“Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos.
Pois comerás do trabalho das tuas mãos; feliz serás, e te irá bem.
A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa.
Eis que assim será abençoado o homem que teme ao Senhor.”
(Tehilim/Salmos 128.1-4)

Seria só coincidência o fato das tribos de Levi e Shimon terem “menos filhos”?

O Mashiach está no meio!

A relação do censo nesta sedrá traz uma curiosidade. Ao lermos a ordem das doze tribos, percebemos que ela não obedece a ordem de nascimento dos filhos de Israel, e isto é muito interessante, pois vemos que Yosef (José), o décimo primeiro filho de Ya’akov (Israel), aparece na lista como o sétimo nome e isto é muito significativo, já que nenhuma tribo recebe propriamente o seu nome, mas o nome de seus filhos (Menashe e Efraim), pois Ya’akov, seu pai havia reivindicado seus filhos como sendo dele:

“E aconteceu, depois destas coisas, que alguém disse a José: Eis que teu pai está enfermo. Então tomou consigo os seus dois filhos, Manassés e Efraim.
E alguém participou a Jacó, e disse: Eis que José teu filho vem a ti. E esforçou-se Israel, e assentou-se sobre a cama.
E Jacó disse a José: O El Shadai me apareceu em Luz, na terra de Canaã, e me abençoou.
E me disse: Eis que te farei frutificar e multiplicar, e tornar-te-ei uma multidão de povos e darei esta terra à tua descendência depois de ti, em possessão perpétua.
Agora, pois, os teus dois filhos, que te nasceram na terra do Egito, antes que eu viesse a ti no Egito, são meus: Efraim e Manassés serão meus, como Rúben e Simeão;”
(Bereshit/Gênesis 48.1-5)

Sabemos que Yosef é um arquétipo do Mashiach (Messias), e ao encontrá-lo na relação justamente como o sétimo nome da lista e considerando que o shabat é o sétimo dia, o sagrado dia de descanso. Entendemos que o Mashiach trará descanso! Mas não é só isso, o nome de Yosef divide a relação das tribos exatamente no meio... Seis nomes antes e seis depois! Seria isso um sinal de que o Mashiach dividiria as opiniões em Israel e/ou dividiria a história de Israel em antes e depois dele? De qualquer forma, considerando Yosef como figura messiânica, percebesse que ele, o Mashiach andaria entre seus irmãos, como um legítimo israelita.


Shabat shalom!!!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sedrá para o Shabat de 13/07/13 (Bamidbar 25)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Embora o capítulo vinte e cinco não seja tão extenso, ele está repleto de lições e curiosidades que nos inspira à reflexão. Reflexão que nos leva a avaliar a qualidade de nossa adoração e fidelidade ao Eterno, pois surge no cenário Pinchas, neto de Aharon, cuja atitude trouxe expiação aos filhos de Israel.

Entre a assimilação e a redenção.

“E esteve Israel em Shitim, e começou o povo a errar com as filhas de Moab. E convidaram o povo aos sacrifícios de seus deuses, e o povo comeu e prostrou-se aos seus deuses.” (Bamidbar/Números 25.1 e 2)

Muito provavelmente, não se percebe a relevância do local em que Israel estava antes de “errar com as filhas de Moab”. O que afinal isso poderia significar? Se considerarmos o percurso que Israel tomaria para suas grandes conquistas, que culminaria com a posse da Terra prometida, a relevância é total e os significados, profundos. Vejamos: Shitim é o plural da palavra Shitah (acácia), madeira utilizada para confecção de diversos utensílios do Mishkan (Tabernáculo). Por estar no plural, acredita-se que Israel estava acampado nas proximidades de um bosque ou algo próximo a isso. Segundo alguns estudiosos, Este local foi o acampamento de Israel até vésperas da travessia do Yarden (Jordão) e posterior conquista de Yericho (Jericó). De fato, podemos constatar isto no Sefer ha Yehoshua (Livro de Josué):

“E Josué, filho de Num, enviou secretamente, de Shitim, dois homens a espiar, dizendo: Ide reconhecer a terra e a Jericó. Foram, pois, e entraram na casa de uma mulher prostituta, cujo nome era Raabe, e dormiram ali.” (Yehoshua/Josué 2.1)

“Levantou-se, pois, Josué de madrugada, e partiram de Shitim, ele e todos os filhos de Israel; e vieram até ao Jordão, e pousaram ali, antes que passassem.”     (Yehoshua/Josué 3.1)

O que estamos tentando dizer, é que o mesmo local, onde os israelitas acamparam, lugar que determinava o limite entre a peregrinação no deserto e a conquista da terra prometida, foi o ‘palco’ de uma grande tragédia, pois os filhos de Israel se deixaram assimilar pela cultura idólatra dos moabitas provocando a ira do Eterno! Foi em Shitim, à beira de sua redenção, que Israel sentiu as conseqüências da assimilação, foi quando negligenciou sua vocação e, como diz o passuk (versículo) três, “juntou-se a Baal-Peor”. Diante deste fato, vem a nossa memória as palavras atribuídas ao emissário Sha’ul (Paulo) na carta aos talmidim (discípulos) em Roma:

“E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé.”
(Ruhomayah/ Romanos 13.11)

Cremos que estamos muito perto de nossa “geulá” (Redenção), por isso a atenção deve ser dobrada para que não nos desviemos para a direita ou esquerda da Torah do Eterno... Vale lembrar que foi, mui provavelmente, em Shitim que O Eterno disse isto a Yehoshua:

“E sucedeu depois da morte de Moisés, servo do SENHOR, que o SENHOR falou a Josué, filho de Num, servo de Moisés, dizendo:
Moisés, meu servo, é morto; levanta-te, pois, agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel.
Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado, como eu disse a Moisés.
Desde o deserto e do Líbano, até ao grande rio, o rio Eufrates, toda a terra dos heteus, e até o grande mar para o poente do sol, será o vosso termo.
Ninguém te poderá resistir, todos os dias da tua vida; como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei nem te desampararei.
Esforça-te, e tem bom ânimo; porque tu farás a este povo herdar a terra que jurei a seus pais lhes daria.
Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo, para teres o cuidado de fazer conforme a toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para que prudentemente te conduzas por onde quer que andares.
Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido.” (Yehoshua/Josué 1.1-8)

A astúcia de Bil’am.

Nos três capítulos anteriores, viu-se que Bil’am foi contratado por Balak para amaldiçoar a Israel, mas ao invés disso ele o abençoava e disse a célebre frase:

“Como amaldiçoarei a quem não amaldiçoou YHWH?” (Bamidbar/Números 23.8A)

Bil’am percebeu que a única forma de Israel ser amaldiçoado, é quando este transgride a Torah, pois está escrito:

“Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz de YHWH Eloheicha (teu Elohim), para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão...”
(D’varim/Deuteronômio 28.15)

Sabedor disso, conforme a Torah infere no capítulo 31 de Bamidbar, Bil’am orquestrou um plano que levou os israelitas a pecarem contra o Eterno:

“E Moisés disse-lhes: Deixastes viver todas as mulheres?
Eis que estas foram as que, por conselho de Bil’am (Balaão), deram ocasião aos filhos de Israel de transgredir contra o SENHOR no caso de Peor; por isso houve aquela praga entre a congregação do SENHOR.” (Bamidbar/Números 31.15-16)

Não devemos temer os feiticeiros, devemos temer ao Eterno e cuidar para que não venhamos ceder aos maus impulsos de nossa natureza carnal.

O culto a Baal-Peor.

Em muitos comentários rabínicos e segundo alguns estudiosos, o culto a Baal-Peor era um dos mais populares naquela região senão o mais popular! E as mais estranhas e absurdas práticas são descritas como parte integrante do ritual a esta entidade. De acordo com a tradição talmúdica, por exemplo, a adoração a este ídolo envolvia práticas escatológicas (nojentas, asquerosas, repugnantes e etc.) (Sifri; San’hedrin 60B, 64A; Rashi). A enciclopédia judaica ainda diz o seguinte:

A adoração a esse ídolo consistia em expor a parte do corpo que todas as pessoas geralmente tomam o maior cuidado para esconder. Conta-se que em uma ocasião, um governante estrangeiro veio até o lugar onde Peor era adorado, para sacrificar a ele, mas quando ele ouviu falar dessa prática, ele fez com que seus soldados atacassem e matassem os adoradores deste deus (Sifre, Bamidbar. 131. San’hedrim 106)

Considerando estas informações, temos a impressão de que, quanto mais depravada a ação do adorador, maior seria o nível de devoção. Sendo assim, fazendo uma analogia com os dias de hoje, parece-nos que este ídolo continua muito popular, pois ‘seus adeptos’ podem ser encontrados ainda hoje em tempo e espaço bem distante do relato bíblico. As músicas carregadas de letras infames, os filmes cada vez mais insinuantes na perversão do sexo são pequenas amostras de uma degradação dos valores humanos, onde os artistas mais se parecem com as prostitutas cultuais das antigas civilizações do que qualquer outra coisa.

Pinchas e a expiação do Povo.

A Torah descreve as conseqüências do pecado cometido pelo povo, vinte e quatro mil pessoas morreram em decorrência da praga que se abateu sobre Israel. Mas a coisa poderia ser ainda pior se o neto de Aharon, Pinchas ben Eleazar ha Cohen (Pinchas filho de Eleazar o sacerdote) não interviesse na situação!

“E eis que veio um homem dos filhos de Israel, e trouxe a seus irmãos uma midianita, à vista de Moisés, e à vista de toda a congregação dos filhos de Israel, chorando eles diante da tenda da congregação.
Vendo isso Finéias, filho de Eleazar, o filho de Arão, sacerdote, se levantou do meio da congregação, e tomou uma lança na sua mão;
E foi após o homem israelita até a tenda, e os atravessou a ambos, ao homem israelita e à mulher, pelo ventre; então a praga cessou de sobre os filhos de Israel.”
(Bamidbar/Números 25.6-8)

O zelo deste homem lhe rendeu um memorial eterno, sua atitude “radical” demonstra que quando se trata de pecado, devemos muitas vezes tomar uma atitude drástica como ensinou Rabi Yeshua:

“E Eu vos digo, Qualquer que olhar para uma mulher no intuito de cobiçá-la, já cometeu adultério com ela em seu coração.
E se o teu olho direito te seduz arranca-o, e lança-o de ti; porquanto é melhor para ti que um dos teus membros pereça, do que todo o teu corpo seja lançado no Gei-Hinnom.
E se tua mão direita te seduz corta-a, e lança-a de ti; pois é mais proveitoso a ti que um dos teus membros pereça, do que todo o teu corpo ser lançado no Gei-Hinnom.”
(Matitiyahu/Mateus 5.28-30)

É interessante a Torah afirmar que o zelo de Pinchas trouxe expiação sobre o povo de Israel. Este zelo foi evidenciado pelo derramamento de sangue dos transgressores. Numa perspectiva mais imediata, percebemos que no que diz respeito à expiação do povo, ou seja, quando é o coletivo que necessita de expiação, sempre vemos a presença do sangue como o elemento expiatório... O que não acontece quando se trata de pecado individual, pois para estes existem outros meios expiatórios. Este aspecto merece uma maior atenção e um estudo à parte para que sejam esclarecidas as implicações que este detalhe evoca. Porém não será neste comentário que abordaremos a questão.

Eliminando a falsa adoração.

Já mencionamos em outros estudos que na cultura semita, um nome é mais do que um substantivo próprio, um nome traz consigo os aspectos de quem o recebeu. É por isso que se diz que mudança de nome é mudança de destino. Neste caso, quando Pinchas mata o casal que afronta a santidade do arraial desprezando a palavra do Eterno, ele estava eliminando alguns aspectos que contaminavam todo o povo! Que aspectos seriam estes? Descobriremos isso observando o nome do casal transgressor:

“E o nome do israelita, que foi morto com a midianita, era Zimri, filho de Salu, príncipe da casa paterna dos simeonitas.
E o nome da mulher midianita morta era Cosbi, filha de Zur, cabeça do povo da casa paterna entre os midianitas.” (Bamidbar/Números 25.14-15)

Vamos analisar os respectivos nomes: o nome “Zimri” tem com raiz as letras zain, mem e resh a mesma raiz da palavra “zimra”, que significa canção; música. Quanto a mulher, o seu nome era “Kozbi” cuja raiz é Kaf, zain e beit, a mesma raiz da palavra mentira, dando um sentido de ser achado mentiroso; ser em vão. Logo, se unirmos os aspectos de cada nome envolvido teremos um “cântico mentiroso”; “um cântico vão”. Com isso em mente, vejamos o Tehilim/Salmos 100:

 “Celebrai com júbilo ao SENHOR, todas as terras.
Servi ao SENHOR com alegria; e entrai diante dele com canto.”
(Tehilim/Salmos 100:1-2)

O cântico é descrito aqui como a forma introdutória de se apresentar ao Eterno, percebe-se então que Pinchas estava limpando Israel de uma adoração mentirosa, de um louvor enganoso e isso está em plena harmonia com os ensinamentos de Yeshua que disse:

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.
O Eterno é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (Yochanan/João 4.23-24)

Esta é uma grande lição que a Torah nos ensina. Não é apenas cantar, dançar e etc. mecanicamente. Nossa expressão de adoração ao Eterno tem que ter vida! Do contrário estaremos enquadrados naquilo que Yeshayahu (Isaías) disse:

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído;
Portanto eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; porque a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá.” (Yeshayahu/Isaías 29.13-14)

Que O Eterno suscite em nós um zelo como o de Pinchas, para que a praga não se instale em nossas vidas e que não sejamos assimilados às portas de nossa redenção.


Shabat Shalom!!!

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sedrá para o Shabat de 06/07/13 (Bamidbar 24)

Por Yochanan ben Avraham

Introdução.

Dando continuidade a sequência de estudos do sefer Bamidbar, estaremos analisando neste Shabat o perek (capítulo) 24, onde Bil’am ainda é o “protagonista” nos eventos que se seguem. Com certeza, Bil’am é um dos personagens mais controversos do Tanach, pois sua instrumentalidade peculiar varia entre o certo e o duvidoso levantando muitas questões interessantes para o estudante das escrituras. A sensibilidade deste místico contrasta com sua conduta e, provavelmente por isso, seu perfil seja tão curioso.

Teshuvah. Uma questão de sensibilidade somente?

“E viu Bil’am que era bom aos olhos de YHWH, que abençoasse Israel...”

Logo na primeira frase deste capítulo, salta aos nossos olhos a percepção que Bil’am teve da relação entre O Eterno e Israel. Apesar dele ter sido contratado por um inimigo (Balak) para fazer o mal a Israel, aparentemente ele não estava tão empenhado como seu contratante, pois teve sensibilidade para entender que a relação entre YHWH e Seu povo é de amor! De fato, vários profetas ao longo da história israelita afirmaram esta verdade, vejamos algumas destas expressões:

“Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho.”
(Oshea/Oséias 11.1)

“Exultai, ó céus, e alegra-te, ó terra, e vós, montes, estalai com júbilo, porque o SENHOR consolou o seu povo, e dos seus aflitos se compadecerá.
Porém Sião diz: Já me desamparou o SENHOR, e o meu Senhor se esqueceu de mim.
Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti.
Eis que nas palmas das minhas mãos eu te gravei; os teus muros estão continuamente diante de mim.” (Yeshayahu/Isaías 49.13-16)

“Naquele tempo, diz YHWH, serei o Elohim de todas as famílias de Israel, e elas serão o meu povo.
Assim diz o SENHOR: O povo dos que escaparam da espada achou graça no deserto. Israel mesmo, quando eu o fizer descansar.
Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí.
Ainda te edificarei, e serás edificada, ó virgem de Israel! Ainda serás adornada com os teus tamboris, e sairás nas danças dos que se alegram.
Ainda plantarás vinhas nos montes de Samaria; os plantadores as plantarão e comerão como coisas comuns.
Porque haverá um dia em que gritarão os vigias sobre o monte de Efraim: Levantai-vos, e subamos a Sião, a YHWH Eloheino.” (Yermiyahu/Jeremias 31.1-6)

Esta sensibilidade deveria causar em Bil’am uma “Teshuvah” (arrependimento) verdadeira, mas, infelizmente, não é isso que veio a acontecer conforme relata alguns tratados e midrashim da literatura rabínica e também no livro de Guilyana (Apocalipse).
Diante disso, conforme o enunciado deste tópico surge a pergunta se apenas sensibilidade para questões espirituais é suficiente para uma teshuvah verdadeira, considerando a vida de Bil’am, a resposta é óbvia: NÃO!
Bil’am, disse ser alguém que via e ouvia as palavras de YHWH... Mas mesmo assim, continuou associado à Balak. Deveríamos então supor que quem se diz conhecedor da Torah (Palavra de YHWH) deve manter “sociedade” com àqueles que são contrários a ela ou não? Fica a pergunta para reflexão.

Iluminado, visionário, cego ou o quê?

Não podemos dizer ao certo, qual dos adjetivos acima melhor se aplica a Bil’am, pois encontramos nos mais diversos escritos rabínicos, diferentes definições para este personagem, vejamos:

“Iluminado” (Ramban; Midrash Agadá)
“Olho vendo o futuro” (Lekach tov)
“Olho que vê” (Targum; Saadia)
“Olho aberto” (Rashbam; Radak, Sherashim; Rashi)
“Insone” (Ibn Janach)
“Mau Olho” (Zohar 1:68b)
“Deslocado” (Rashi)
“Cego” (San’hedrin 105a; Nidá 31a)

Todas estas diferentes definições confirmam o quanto Bil’am era controverso, pois não há consenso entre as opiniões dos grandes comentaristas da Torah... Provavelmente porque cada um abordou um aspecto da passagem, uns se detendo simplesmente no texto e outros ao personagem.
Afinal, quem era Bil’am? É difícil concluir... Mas ele se definiu como “alguém que ouvia os dizeres de YHWH e que tinha uma visão do Poderoso”. A expressão שתם העין “shetum haain”, pode significar “o Olho aberto” considerando que “shetum” vem de “shatam” (abrir) que é escrito com os mesmos caracteres (Shin, Tav e Mem sofit), mas esta é uma auto definição, ou seja, era como Bil’am se definia, e não uma definição da Torah, até porque ele é considerado como a ‘antítese’ de Moshe nas diversas obras rabínicas como citado na enciclopédia judaica:

“A Residência de Balaão era Padan-aram, mas sua fama como "intérprete de sonhos" deu a sua cidade o nome de "Petor" ("interpretar"). Sua grande sabedoria fez-lhe presunçoso, e tornou-se um homem tolo, insensato — "ben be'or" ("enganar"; Targ, Yer. a xxii nm. 5). A história da guerra de Moisés com os etíopes em tempos antigos , foi relatada por Josefo ("Ant." ii. 10) segundo fontes helenísticas, foi conectada a Balaão. Balaão (veja Sanh. 106a; Soah 11a; Jellinek, ii "B. H.". 3; "Crônicas de Jerameel", traduzido por Gaster, xliv. 9, xlvi. 15) foi um dos três conselheiros consultados pelo faraó em relação aos Hebreus...”

 O ritual e as profecias de Bil’am.

Curiosa também é a forma como Bil’am tinha “as visões do Todo-Poderoso”: caindo num êxtase de meditação (Targum; Rashi; Ibn Ezra); envolvendo meditação (Ralbag; Abarbanel). Alguns dizem que isto envolvia práticas sexuais com animais (San’hedrin 105ª); Algumas fontes mantém que Bil’am realmente caiu ao chão durante a profecia (Lekach tov, Josefus/ Antiguidades 4:6:5) e isto é muito interessante, pois está em harmonia com alguns relatos do Tanach e também no livro de Guilyana (Apocalipse), são eles: Sh’muel alef (1 Samuel) 19.18-24; Yechezkel (Ezequiel) 1.28; Daniel 8.17 e 18; Guilyana (Apocalipse)1.9-17. A partir disto, fica a impressão de que as palavras que Bil’am proferiu acerca de Israel e seu futuro vieram de uma experiência extática, ou seja, de um momento de êxtase proporcionado pelo Espírito (Ruach) de Elohim como descreve o passuk (versículo) dois deste capítulo.
Foi neste estado que Bil’am, sob a influência da Ruach Elohim, proferiu as primeiras palavras do “Ma Tovu” cantado a cada Shabat em praticamente todas as sinagogas espalhadas mundo afora! Foi neste estado que ele anunciou a vinda de um rei que suplantaria Agag (que provavelmente seja um título para os reis amalequitas e não um nome próprio), como referência aos primeiros reis israelitas Saul e David. Finalmente, é neste estado de êxtase que Bil’am parece prever um rei que iria ser maior que os demais reis israelitas (Vers. 17-24). Sobre este particular, nos parece que o tempo do fim é anunciado e, como os profetas do Tanach, começa a sentenciar os inimigos de Israel. Se espanta com os “juízos contra os povos” (vers. 23) e por fim faz uma previsão extraordinária ao dizer:

  “E as naus virão das costas de kitim e afligirão a Assur; também afligirão a Éber; que também será para destruição.” (Bamidbar/Números 24.24)

Isto é extremamente interessante porque os “Kitim” foram identificados como os conquistadores que chegavam dos lados do mar Mediterrâneo 1 Mac 1,1; 8,5; Dn 11,30.  (Collins 1998 93; Hadas-Lebel 1990 40-43; 339-341) Ou seja, gregos e romanos. Corroborando com essa afirmativa, vemos que nos pesharim, (método essênio de Interpretações das profecias bíblicas), os “kitim” eram identificados como o exército romano .Éber aqui mencionado seria uma referencia aos seus descendentes e não propriamente ele, portanto, os hebreus! Teria Bil’am visto o cativeiro de Israel sob Roma?

O Mashiach e o misticismo.

Outra curiosidade despertada nesta sedrá é o fato de Bil’am prever, ou mesmo, reconhecer os ‘Messias’ israelitas somente sob Ruach Elohim. E ao longo da história israelita, foi a partir de experiências desta natureza, que alguns renomados rabinos fizeram declarações (confissões) que até os dias de hoje causam certo mal estar nos círculos mais tradicionais do judaísmo. Refiro-me, dentre outros, a: Rabino Daniel Zion; Rabino Yechiel Tzvi Lichtenstein e Rabino Yitzchak Kaduri (que deixou um bilhete para ser lido um ano após sua morte, o qual dizia ter o nome do mashiach, causando grande discussão entre seus talmidim/discípulos). Todos eles eram místicos proeminentes e suas biografias podem ser exploradas pela net, pois são amplamente divulgadas contendo, inclusive, obras acessíveis a todos os interessados.


Considerações finais.

Algumas curiosidades sobre Bil’am podem ser encontradas com mais detalhes na enciclopédia judaica abaixo, estão transcritas algumas delas:

“Balaão é representado como um dos sete profetas pagãos; os outros seis seriam o pai de Balaão, Yov (Jó) e seus quatro amigos (B.b. 15b). Gradualmente, ele adquiriu uma posição entre os pagãos tão exaltada como a de Moisés entre o povo escolhido (Num. R. xx. 1). Primeiramente, um mero intérprete de sonhos,  mais tarde  Balaão tornou-se um mágico, até que finalmente o espírito de profecia desceu sobre ele (IB. 7). Ele possuía o dom especial de ser capaz de determinar o momento exato em que O Eterno estria irado — um dom outorgado a nenhuma outra criatura. Balaão pretendia amaldiçoar os israelitas neste momento da ira; mas O Eterno propositadamente conteve a sua ira para confundir o perverso Profeta e salvar a nação do extermínio (Ber. 7a). Quando a lei foi dada a Israel, uma voz poderosa abalou os fundamentos da terra; para que todos os reis tremessem e em sua consternação reuniram-se com Balaão, perguntando se esta convulsão da natureza pressagiavam um segundo dilúvio; mas o Profeta assegurou-lhes que o que eles ouviram era a voz do todo poderoso que dava a Lei sagrada ao seu povo, os filhos de Israel (Zeb. 116).
No entanto, é significativo que, na literatura rabínica, o epíteto "Ana" (maligno) muitas vezes é anexado ao nome de Balaão (Ber. l.c.; Taanit 20a; Num. R. xx. 14). Ele é retratado como cego de um olho e coxo em um pé (San. 105a); e seus discípulos (seguidores) distinguem três qualidades moralmente corruptas, um mau-olhado, altivez e avareza — qualidades a exatamente opostas daquelas que caracterizam os discípulos de Abraão (AB. v. 19; compare Tan., Balaque, 6). Balaão recebeu a comunicação divina à noite somente — uma limitação que se aplica também a outros profetas pagãos (Num. R. xx. 12).”

Outra declaração interessante encontra-se no tratado San’hedrin 10.2:90A, onde diz que ele conheceu sua morte na idade de trinta e três anos e que ele não teria parte alguma no “Olam habá” (mundo vindouro). Esta declaração pode ser uma forma de associar Yeshua (que segundo a tradição cristã teria morrido aos trinta e três anos) a este personagem tão odiado, já que ele, igualmente tambén era odiado por muitos judeus...Esta declaração revela também que existe uma contradição entre esta suposta idade da morte com a ideia de Bil'am ter sido um dos conselheiros de Faraó.

Shabat Shalom!!!